A sucessão de Davi e a unção de Salomão
Davi já está muito idoso, tremendo de frio mesmo coberto de roupas, e seus servos procuram uma jovem sunamita chamada Abisague para cuidar dele e mantê‑lo aquecido, embora ele não tenha relações com ela.
Nesse contexto de fraqueza do rei, Adonias, um de seus filhos, belo e jamais disciplinado por Davi, decide exaltar‑se e proclamar: “Eu serei o rei”, organizando carros, cavaleiros e cinquenta homens para correrem à sua frente como corte real. Ele conquista o apoio de Joabe, comandante do exército, e de Abiatar, o sacerdote, mas não conta com Zadoque, Natã, Benaia, os valentes de Davi nem com Salomão.
Adonias faz um grande banquete sacrificial perto da fonte de En‑Rogel, chamando todos os irmãos e oficiais de Judá, mas excluindo Natã, Benaia, os valentes e Salomão, sinal claro de um golpe sucessório.
Natã, percebendo o risco para Salomão e sua mãe, procura Bate‑Seba e a instrui a lembrar Davi do juramento de que Salomão seria o sucessor, enquanto ele mesmo entraria depois para confirmar suas palavras.
Bate‑Seba se apresenta ao velho rei, relata que Adonias já está agindo como rei sem o seu conhecimento e que todo Israel espera a definição de quem se assentará no trono; alerta ainda que, se nada for feito, ela e Salomão serão tratados como culpados quando Davi morrer.
Natã entra em seguida, confirma o relato de Bate‑Seba, descreve o sacrifício de Adonias e o brado dos convidados: “Viva o rei Adonias!”, e pergunta se isso foi feito por ordem do rei sem que se avisasse aos servos quem seria o sucessor.
Davi reage, manda chamar Bate‑Seba novamente, reafirma com juramento que Salomão reinará em seu lugar e ordena a Zadoque, Natã e Benaia que ponham Salomão em sua própria mula, o levem a Giom, o unjam ali como rei sobre Israel, toquem a trombeta e proclamem: “Viva o rei Salomão!”, conduzindo‑o depois para sentar‑se no trono de Davi. A cerimônia é realizada, o povo acompanha com alegria, flautas e grande clamor, de modo que o barulho faz “tremer” a terra.
Enquanto isso, Adonias e seus convidados ouvem o toque de trombeta e o alvoroço da cidade, e Joabe se espanta com o ruído; logo chega Jônatas, filho de Abiatar, trazendo a notícia de que Davi constituiu Salomão rei, descrevendo a unção em Giom, a aclamação popular e o fato de que Salomão já se sentou no trono.
Os convidados de Adonias entram em pânico e se dispersam, cada um fugindo para seu caminho, percebendo que a tentativa de usurpação fracassou. Adonias, temendo por sua vida, corre ao altar e se agarra às suas pontas, pedindo a Salomão que lhe jure não matá‑lo; Salomão, então, condiciona sua vida à boa conduta: se ele se mostrar homem de bem, nenhum cabelo cairá ao chão, mas se houver maldade, morrerá, e o despede para casa após ele se prostrar diante do novo rei.
As últimas ordens de Davi e a consolidação do trono
Aproximando‑se os dias de sua morte, Davi chama Salomão e o exorta a ser forte e se portar como homem, guardando os preceitos do Senhor, andando nos seus caminhos e obedecendo estatutos, mandamentos, juízos e testemunhos escritos na Lei de Moisés, para prosperar em tudo que fizer e em qualquer direção que se volte.
Ele vincula essa obediência à promessa divina de que não faltaria descendente no trono de Israel, desde que seus filhos andassem fielmente perante Deus com todo coração e alma. Em seguida, Davi lembra a Salomão as graves ações de Joabe, que derramou sangue de guerra em tempo de paz ao matar Abner e Amasa, manchando seu cinto e suas sandálias, e ordena que o filho use sabedoria para que suas cãs (cabelos brancos) não desçam em paz à sepultura.
Em contraste, Davi manda que Salomão trate com benevolência os filhos de Barzilai, o gileadita, permitindo que comam à mesa do rei, em reconhecimento à fidelidade mostrada quando Davi fugia de Absalão.
Lembra também Simei, benjamita de Baurim, que o amaldiçoou com maldição severa quando ele ia para Maanaim, embora depois tenha pedido perdão no Jordão, ocasião em que Davi lhe jurou não matá‑lo; ao filho, porém, diz que não o tenha por inocente, mas, como homem prudente, saberá o que fazer para que suas cãs desçam ao túmulo com sangue. Depois dessas instruções, Davi morre, é sepultado na Cidade de Davi, e o livro registra que reinou quarenta anos: sete em Hebrom e trinta e três em Jerusalém.
Salomão se assenta no trono de seu pai, e seu reino se fortalece grandemente, mas logo enfrenta uma nova tentativa de Adonias de se aproximar do poder. Adonias procura Bate‑Seba e admite que o reino “era” dele e que todo Israel havia posto os olhos nele para reinar, mas que o domínio se voltou para o irmão por vontade do Senhor; pede então apenas uma coisa: que ela interceda junto a Salomão para que Abisague, a sunamita, seja dada a ele por mulher. Bate‑Seba leva o pedido ao rei, que se levanta para honrá‑la, põe um trono para a mãe à sua direita e promete não recusar seu pedido antes de ouvi‑lo.
Ao ouvir que ela deseja Abisague para Adonias, Salomão percebe a implicação política: conceder a jovem que havia servido intimamente ao velho rei poderia significar um símbolo de legitimidade real para Adonias.
Por isso, responde indignado, perguntando por que não pede também o reino para ele, visto que é o irmão mais velho, e associa o pedido à influência de Abiatar e Joabe, sinais de um complô continuado.
O rei jura pelo Senhor que Adonias falou “contra a própria vida” e declara que, assim como Deus o estabeleceu no trono de Davi e lhe edificou casa conforme prometera, naquele mesmo dia Adonias morreria.
Salomão envia Benaia, filho de Joiada, que executa Adonias, eliminando a principal ameaça imediata. Em seguida, o rei se volta para Abiatar, o sacerdote, reconhecendo que ele é digno de morte, mas poupa‑o naquele dia por ter carregado a arca do Senhor e participado das aflições de Davi, banindo‑o para Anatote e destituindo‑o do sacerdócio. O narrador observa que, ao expulsar Abiatar, Salomão cumpre a palavra do Senhor contra a casa de Eli, proferida em Siló.
A notícia chega a Joabe, que, por ter apoiado Adonias, foge e se refugia agarrado às pontas do altar no tabernáculo; Salomão manda Benaia executar a sentença, ainda que Joabe insiste em morrer junto ao altar.
Benaia retorna para ouvir a decisão final, e Salomão determina que o mate e o sepulte, tirando de si e da casa de seu pai a culpa do sangue inocente derramado por Joabe; declara que o Senhor fará recair o sangue sobre a cabeça dele e de sua descendência, enquanto Davi e sua casa terão paz perpetuamente.
Benaia mata Joabe e ele é sepultado em sua propriedade no deserto, sendo o próprio Benaia colocado à frente do exército e Zadoque estabelecido como sacerdote em lugar de Abiatar, reorganizando assim os pilares militar e religioso do reino.
Resta ainda tratar de Simei: Salomão manda que ele construa casa em Jerusalém e não saia da cidade, advertindo que, no dia em que atravessar o ribeiro de Cedrom, saberá que certamente morrerá e que o sangue será sobre sua cabeça.
Simei aceita a condição e vive muitos dias em Jerusalém, mas após três anos seus servos fogem para Gate, e ele, sem considerar o juramento, sela o próprio destino ao sair para resgatá‑los.
Quando o rei fica sabendo que Simei rompeu o acordo, o confronta: lembra que o havia advertido e que reconhecera a bondade da sentença, pergunta por que não guardou o juramento e recorda toda a maldade feita a Davi, seu pai, declarando que o Senhor fez recair sua maldade sobre a própria cabeça; então ordena a Benaia que o execute, firmando assim o reino nas mãos de Salomão.
O pedido de sabedoria e o julgamento das duas mães
Com os inimigos internos neutralizados, Salomão sela uma aliança política desposando uma filha do faraó e trazendo‑a para a Cidade de Davi, enquanto completa a construção de sua própria casa, da casa do Senhor e dos muros de Jerusalém.
O povo ainda sacrifica nos altos, pois o templo ainda não foi edificado, e o rei vai a Gibeom, principal alto da época, onde oferece mil holocaustos sobre o altar. Numa noite em Gibeom, o Senhor aparece a Salomão em sonho e lhe diz:
“Pede‑me o que queres que eu te dê”.
O jovem rei reconhece a grande misericórdia de Deus para com Davi, seu pai, e confessa sua inexperiência, descrevendo‑se como uma criança no meio de um povo numeroso que não se pode contar.
Em vez de pedir longa vida, riquezas ou a morte dos inimigos, ele pede um coração entendido para julgar o povo e discernir entre o bem e o mal, a fim de governar com justiça.
O pedido agrada ao Senhor, que promete conceder não apenas sabedoria sem igual, mas também riquezas e honra, de modo que nenhum rei lhe será semelhante em seus dias, e acrescenta que, se ele andar nos caminhos de Deus como Davi, terá também longa vida.
Salomão volta a Jerusalém, oferece sacrifícios diante da arca da aliança e dá um banquete para seus servos, e logo a narrativa exemplifica a nova sabedoria com o famoso caso das duas prostitutas que disputam a maternidade de um mesmo bebê.
Ambas vivem na mesma casa e tiveram filhos com poucos dias de diferença; uma delas conta que a outra deitou sobre o próprio filho e o matou durante a noite, trocando depois os bebês. Sem testemunhas, as duas insistem: “O filho vivo é meu; o morto é teu”, tornando o conflito aparentemente insolúvel.
O rei, então, manda trazer uma espada e ordena que se divida o menino vivo em duas partes, dando metade para cada mulher, para testar seus corações. A verdadeira mãe, movida de profunda compaixão, suplica que o rei dê o menino à outra, contanto que ele viva, enquanto a falsa concorda com a divisão, “nem meu nem teu”.
Salomão declara que a verdadeira mãe é a que prefere abrir mão do filho a vê‑lo morto e manda entregar o menino a ela, e todo Israel fica impressionado com o juízo do rei, reconhecendo que nele havia sabedoria de Deus para fazer justiça.
Organização administrativa e prosperidade de Israel
O narrador passa então a descrever a estrutura administrativa que sustenta o governo de Salomão, mostrando que a sabedoria do rei se expressa também na organização do reino.
Salomão possui oficiais principais, entre eles sacerdotes, secretários, um cronista, um comandante do exército, um dirigente de tributos e um mordomo da casa, composições que refletem uma corte sólida e funcional.
Além desses altos oficiais, o texto enumera doze oficiais regionais, cada um responsável por prover mantimentos para o rei e sua casa durante um mês do ano, criando uma rede de abastecimento estável que distribui o ônus entre as diversas regiões.
O domínio de Salomão se estende, em linguagem bíblica, desde o rio (geralmente entendido como Eufrates) até a terra dos filisteus e até a fronteira do Egito, com reinos vizinhos trazendo tributo e servindo ao rei.
A abundância é destacada: a provisão diária da casa real inclui grande quantidade de farinha, bois, carneiros e aves, sinal da riqueza concentrada no palácio. O texto também enfatiza que o povo de Judá e de Israel vivia em segurança, “cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira”, do norte ao sul, uma imagem clássica de paz e bem‑estar.
Salomão possui grande número de cavalos e carros, e seus oficiais asseguram alimento para os animais e para todos os que à mesa do rei se assentam, sem falta. Em termos de sabedoria, é dito que Deus deu a Salomão sabedoria e muitíssimo entendimento, além de um coração dilatado como a areia do mar; sua sabedoria supera a de todos os filhos do Oriente e a do Egito.
Ele compõe milhares de provérbios e cânticos, conhece desde o cedro do Líbano até o hissopo que nasce no muro, além dos animais, aves, répteis e peixes, de modo que pessoas de todas as nações vêm ouvir sua sabedoria, enviadas por reis que ouviram falar de sua fama.
Aliança com Hirão e preparação para o templo
Com o reino estabilizado, a narrativa passa à grande obra de Salomão: a construção do templo.
Hirão, rei de Tiro, que já havia sido aliado de Davi, envia seus servos a Salomão ao saber de sua unção, declarando amizade. Salomão lembra que Davi não pôde construir a casa ao nome do Senhor por causa das guerras em que esteve envolvido, mas agora Deus lhe dera descanso por todos os lados, sem adversário nem infortúnio, e por isso ele se propõe a erguer o templo segundo a palavra que o Senhor falara a Davi.
Ele solicita a Hirão madeira de cedro do Líbano, propondo que os servos do rei fenício e os seus trabalhem juntos, e promete pagar o salário que Hirão determinar para os lenhadores.
Hirão se alegra e bendiz o Senhor por ter dado a Davi um filho sábio sobre tão grande povo, aceitando o acordo: seus servos cortarão as madeiras e as farão descer em jangadas pelo mar até o lugar designado, de onde Salomão as recolherá, em troca de provisões de trigo e azeite para a casa de Hirão. Assim se estabelece uma aliança econômica e política, juntando a habilidade marítima e comercial de Tiro com a força agrária de Israel.
Salomão impõe também um recrutamento de trabalhadores em Israel, organizando trinta mil homens em turnos de dez mil por mês que se revezam no Líbano e em casa. Além deles, há setenta mil que carregam cargas, oitenta mil que cortam pedra nas montanhas e supervisores que dirigem a obra. Pedras grandes, de valor, são lavradas para os fundamentos do templo, e os construtores de Salomão e os de Hirão, junto com os gebalitas, preparam a madeira e a pedra para edificar a casa, antecipando a grandiosidade e o cuidado artístico da construção.
A construção do templo
No quarto ano do reinado de Salomão, no mês de Zive (segundo mês), começa a construção do templo do Senhor em Jerusalém, ligando o calendário político ao religioso.
O texto descreve com detalhe as dimensões: um edifício principal retangular, com pórtico, santuário e Santo dos Santos, recoberto internamente de madeira de cedro e cipreste e adornado com entalhes de querubins, palmas e flores abertas.
Cômodos laterais são construídos em três andares, ao redor do templo, servindo como dependências auxiliares, e a casa é edificada com pedras já lavradas na pedreira, de modo que não se ouve martelo, machado ou qualquer ferramenta de ferro no local da construção, sugerindo reverência e ordem.
Durante a obra, o Senhor fala a Salomão, reiterando que, se ele andar nos estatutos, executar os juízos e guardar todos os mandamentos, Deus cumprirá com ele a promessa feita a Davi, habitará no meio dos filhos de Israel e não abandonará seu povo.
A madeira reveste o interior desde o chão até o teto, e o Santo dos Santos, um cubo perfeito, recebe revestimento de ouro puro, com um altar de cedro também coberto de ouro e grandes querubins com asas estendidas enchendo o espaço. O santuário diante dele é igualmente adornado em ouro e entalhes, e uma porta de oliveira esculpida separa o lugar santíssimo, simbolizando a beleza e a santidade da presença divina.
O edifício principal leva sete anos para ser concluído, mostrando o enorme investimento de tempo, recursos e mão de obra. Mais do que um projeto arquitetônico, o templo representa o centro da vida religiosa de Israel, substituindo o tabernáculo móvel por uma casa fixa para o nome do Senhor em Jerusalém. Nesse capítulo, a narrativa alterna descrição técnica com a aliança condicional: a permanência da presença de Deus ligada à fidelidade do rei e do povo.
O palácio de Salomão e os utensílios do templo
Depois de registrar os sete anos do templo, o livro menciona que Salomão leva treze anos construindo sua própria casa, indicando que o complexo palaciano é ainda maior e mais elaborado. Ele constrói a “Casa da Floresta do Líbano”, com colunas e vigas de cedro, salão do trono para julgamento, casa para si e outra para a filha do faraó, todas obras majestosas que consolidam Jerusalém como capital. A descrição destaca colunatas, pórticos, pavimentos e o uso extensivo de pedras preciosas e madeiras nobres, demonstrando o esplendor do reinado.
Para os detalhes de bronze do templo, Salomão chama Hirão (ou Hiram), um artesão hábil de Tiro, especialista em trabalhos de metal. Ele modela duas grandes colunas de bronze, Jacin e Boaz, colocadas na entrada do templo, além de capitéis com redes, romãs e lírios, carregando significado simbólico de estabilidade e beleza.
Também faz o “mar de bronze”, um enorme tanque sustentado por doze bois, bacias sobre suportes, caldeirões, pás e bacias, completando o sistema de lavagens rituais dos sacerdotes.
Todos os utensílios ordenados por Salomão – castiçais de ouro, mesas, lâmpadas, vasos, colheres, braseiros e fechaduras das portas – são produzidos com excelência, e o narrador conclui dizendo que a obra de Hirão se cumpre inteiramente.
O templo, assim, não é apenas um edifício, mas um conjunto de espaços e objetos cuidadosamente concebidos para o culto, refletindo a glória do Deus de Israel e, ao mesmo tempo, a magnificência do rei. Ao finalizar, Salomão traz os utensílios que Davi havia consagrado, prata, ouro e vasos, e os deposita nos tesouros da casa do Senhor, conectando a geração de Davi à sua própria.
Dedicação do templo e oração de Salomão
Com o templo concluído, Salomão reúne os anciãos de Israel e todos os chefes de tribos para trazer a arca da aliança de Sião, a Cidade de Davi, para o novo edifício, num momento culminante da história nacional.
Sacerdotes e levitas transportam a arca e todos os utensílios do santuário, enquanto se sacrificam tantas ovelhas e bois que não se podem contar. A arca é colocada no Santo dos Santos, sob as asas dos grandes querubins de madeira, e dentro dela estão apenas as tábuas da aliança que Moisés ali havia posto em Horebe.
Quando os sacerdotes saem do lugar santo, uma nuvem enche a casa do Senhor, de maneira que eles não podem permanecer para ministrar, pois a glória do Senhor enche o templo, lembrando a manifestação no tabernáculo no deserto.
Salomão fala ao povo, bendiz o Senhor por ter cumprido a palavra dada a Davi de que seu filho construiria a casa para o nome de Deus, e explica que Jerusalém foi escolhida como lugar para o nome do Senhor. Em seguida, ele se coloca diante do altar, na presença de toda a congregação, estende as mãos para o céu e profere uma longa oração de dedicação.
Na oração, Salomão reconhece que Deus não pode ser contido por céus e céus dos céus, quanto menos por aquele templo, mas pede que os olhos do Senhor estejam abertos dia e noite sobre aquela casa, ouvindo as orações feitas em direção a ela.
Ele intercala diversos cenários:
- quando alguém pecar contra o próximo e jurar diante do altar;
- quando Israel for derrotado por causa do pecado e se voltar para Deus;
- quando houver seca, fome, pragas ou inimigo;
- quando estrangeiros vierem de longe por causa do nome do Senhor;
- quando o povo sair à guerra; e
- quando estiver cativo em terra distante.
Em cada caso, ele suplica que Deus ouça desde o céu, perdoe, julgue com justiça, ensine o bom caminho e, se for o caso, restaure o povo à terra dada aos pais.
Depois da oração, Salomão se levanta, abençoa em alta voz toda a congregação, exaltando a fidelidade de Deus às promessas feitas a Moisés e a Davi e exortando o povo a inclinar o coração ao Senhor, andando em seus caminhos e guardando seus mandamentos.
São oferecidos sacrifícios de comunhão em número enorme, e o rei consagra o meio do átrio interior porque o altar de bronze não comportava todas as ofertas queimadas e gorduras; celebra‑se a festa por sete dias, seguida de mais sete, com toda Israel, desde Lebo‑Hamate até o rio do Egito, regozijando‑se diante do Senhor.
Ao final, Salomão despede o povo, que volta às suas tendas alegre e de coração contente por todo o bem que o Senhor fizera a Davi, a Salomão e a Israel, seu povo.
Segunda aparição do Senhor e a fama de Salomão
Após a dedicação, o Senhor aparece novamente a Salomão, como havia feito em Gibeom, confirmando que ouviu a oração e a súplica que ele fizera diante do altar.
Deus declara ter santificado o templo, pondo ali o seu nome para sempre e prometendo que seus olhos e coração estarão naquele lugar todos os dias. Reitera a condição: se Salomão andar perante Ele como Davi, com integridade de coração e retidão, guardando os mandamentos, então firmará o trono de seu reino sobre Israel para sempre, conforme prometera a Davi.
Por outro lado, o Senhor adverte que, se ele ou seus filhos se desviarem, servirem outros deuses e os adorarem, Israel será arrancado da terra e a casa que foi santificada para o nome do Senhor será lançada longe de Sua presença.
O templo se tornará motivo de espanto e zombaria entre as nações, e quem passar por ele perguntará por que o Senhor fez assim a esta terra e a este templo, e a resposta será: porque abandonaram o Senhor, que tirou seus pais do Egito, e se apegaram a outros deuses. A grandeza da casa, portanto, está subordinada à fidelidade do povo e de seu rei.
O capítulo também menciona que, ao fim de vinte anos, isto é, sete anos para a casa do Senhor e treze para o palácio, Salomão entrega a Hirão, rei de Tiro, vinte cidades na terra da Galileia, em troca da madeira, ouro e serviços prestados; porém Hirão fica descontente com a qualidade das cidades e as chama de “terra de Cabul” (desagradável ou inútil).
Ainda assim, ele havia enviado a Salomão cento e vinte talentos de ouro, e a cooperação entre ambos permanece um elemento chave da prosperidade do reino. Há referência às obras de Salomão: o levantamento de tributos, a reconstrução de cidades, fortificações como Hazor, Megido e Gezer, além de centros de armazenamento e cidades de carros e de cavaleiros.
Salomão também organiza o trabalho forçado dos povos remanescentes não israelitas (amorreus, hititas, perizeus, heveus e jebuseus), enquanto os israelitas servem como soldados, oficiais, capitães e comandantes de carros.
O rei continua a oferecer holocaustos e ofertas pacíficas no altar do Senhor três vezes ao ano, queimando incenso diante do Senhor e mantendo o culto no templo. Por fim, o texto ressalta a frota de navios que Salomão constrói em Eziom‑Geber, perto de Elate, no mar Vermelho, em parceria com Hirão, cujos marinheiros experientes navegam com os servos de Salomão até Ofir, trazendo grandes quantidades de ouro, o que reforça ainda mais a fama e riqueza do rei.
Anotações do Autor
Absalão x Adonias no desejo de reinar
Muitos comentaristas notam paralelos claros entre Absalão e Adonias. Ambos são descritos como muito belos e carismáticos e ambos tentam antecipar ou usurpar a sucessão sem esperar a decisão de Deus ou de Davi.
Absalão busca popularidade, prepara carros, cavalos e homens, e acaba tomando as concubinas de Davi em público como sinal de que assume o trono. Adonias igualmente “se exalta” dizendo “Eu serei rei”, providencia carros e cinquenta homens e, depois, tenta legitimar sua pretensão pedindo Abisague, ligada ao leito real de Davi.
Ou seja, os dois personificam ambição ilegítima pelo trono, embora suas estratégias e momentos sejam diferentes.
Por que Deus pergunta apenas a Salomão “o que queres?”
O texto mostra uma situação singular: Salomão recém‑entronizado, amando o Senhor e seguindo os estatutos de Davi, vai a Gibeom e oferece mil holocaustos; ali Deus se manifesta em sonho e diz “Pede o que quiseres que eu te dê”.
A narrativa sublinha que Deus se agrada da atitude de Salomão (amor, culto e senso de responsabilidade) e, por isso, abre essa concessão especial, que se torna um marco literário e teológico.
Não é que Deus “nunca” tenha perguntado a outros, mas que, na história bíblica, esse tipo de convite explícito aparece de forma única aqui, para evidenciar a sabedoria do pedido (discernimento para governar) e a generosidade divina (sabedoria + riquezas + honra).
Devemos sempre nos lembrar que, a ausência de textos bíblicos, não é o mesmo que dizer que algo jamais aconteceu.
Prostitutas tinham muitos filhos em Israel?
O texto de 1 Reis 3 apenas afirma que duas prostitutas moravam juntas e, em intervalo curto, cada uma teve um filho, sem sugerir que “muitos filhos” fossem padrão específico da prostituição.
Na sociedade israelita, prostituição (especialmente cultual) existia, mas mulheres nessa condição tendiam a estar em situação social vulnerável, não em um modelo familiar estável com grande prole.
Ter vários filhos era comum em geral entre mulheres israelitas, mas não há evidência textual de que prostitutas, como categoria, fossem conhecidas por ter “muitos filhos”; o caso em 1 Reis 3 é um exemplo jurídico, não um padrão demográfico.
Livros bíblicos atribuídos a Salomão
Tradicionalmente, o judaísmo e boa parte do cristianismo atribuem a Salomão:
- Provérbios (pelo menos a maior parte: 10–22; 25–29 são “provérbios de Salomão” segundo os títulos internos);
- Eclesiastes (apresenta um “filho de Davi, rei em Jerusalém”; a tradição associa a Salomão);
- Cântico dos Cânticos (o título o vincula a Salomão: “Cântico dos cânticos de Salomão”).
Além disso, a narrativa informa que Salomão compôs 3.000 provérbios e 1.005 cânticos, sugerindo vasta produção literária, ainda que apenas parte tenha sido preservada canonicamente.
“Céus e céus dos céus” e quantos “céus” existem
Quando Salomão diz que “Deus não pode ser contido pelos céus e pelos céus dos céus” (1 Reis 8:27), ele usa uma linguagem de superlativo para afirmar a transcendência divina: nem o cosmos inteiro, em todos os seus níveis, é capaz de “conter” o Criador.
A expressão “céu dos céus” já aparece em Deuteronômio 10:14 e indica os céus mais elevados, além do firmamento visível, não um esquema técnico de camadas numeradas.
Na tradição cristã posterior, fala‑se com frequência em “três céus” (por exemplo, pela leitura de 2 Coríntios 12:2), mas isso é desenvolvimento de séculos depois; o texto de 1 Reis não implica que Salomão tivesse um mapa completo e definido de “quantos” céus existem, e sim que sabia que Deus ultrapassa qualquer esfera criada, visível ou invisível.
“Terra de Cabul”: o que Hirão quis dizer?
Em 1 Reis 9:10‑14, Salomão dá a Hirão, rei de Tiro, vinte cidades na Galileia em contrapartida ao ouro que recebeu; ao vê‑las, Hirão pergunta: “Que cidades são estas?” e chama aquela região de “terra de Cabul”.
Várias traduções e estudos explicam que “Cabul” é entendido como “nada”, “sem valor” ou “improdutiva”, sugerindo que Hirão achou as cidades pobres, sem produtividade ou importância estratégica, aquém do que esperava em troca de tanto ouro.
2 Crônicas 8:2 ainda indica que essas cidades acabaram retomadas por Salomão, reforçando a ideia de que Hirão permaneceu insatisfeito com o “pagamento” recebido.










Nenhum comentário:
Postar um comentário
Concorde com o que está escrito aqui, ou discorde completamente. Faça o que fizer, seja educado e cortez.