A sunamita restaurada, Hazael e os reis infiéis
Depois de muitos prodígios, Eliseu volta à história da mulher sunamita, aquela cujo filho fora ressuscitado anos antes.
O profeta a adverte sobre uma fome de sete anos que viria sobre a terra, exortando‑a a sair com a família e peregrinar onde pudesse encontrar sustento. A sunamita obedece, deixa suas terras e se refugia entre os filisteus durante todo o período da escassez, desaparecendo da cena de Israel.
Passado o tempo determinado, ela regressa e encontra suas propriedades ocupadas por outros. Sem poder, sem marido influente e sem garantias, ela se dirige ao rei para suplicar pela devolução de sua casa e de seus campos.
Nesse exato dia, o rei conversava com Geazi, o servo de Eliseu, pedindo que este lhe contasse os grandes feitos do profeta. E Geazi, justamente naquele momento, narrava o milagre da ressurreição do filho da sunamita.
Quando ela entra na sala, é imediatamente identificada por Geazi como a protagonista do relato; o rei se impressiona com a coincidência providencial, manda um oficial acompanhá‑la e ordena que não só suas terras lhe sejam devolvidas, mas também os frutos colhidos durante todos os anos em que esteve ausente.
A narrativa muda então para Damasco, na Síria. Ben‑Hadade, o rei sírio, está doente e ouve dizer que Eliseu está na cidade. Envia Hazael, um de seus oficiais de confiança, com um presente luxuoso – quarenta camelos carregados – para consultar o profeta se irá sarar.
Eliseu afirma que a doença não é necessariamente mortal, mas revela algo muito mais profundo: declara que Ben‑Hadade morrerá e que Hazael se tornará rei da Síria, e, ao encarar o oficial, começa a chorar.
Questionado sobre o motivo das lágrimas, o profeta responde que vê, antecipadamente, as crueldades que Hazael praticará contra Israel:
- fortalezas incendiadas;
- jovens mortos à espada;
- crianças esmagadas e grávidas rasgadas.
Hazael, fingindo humildade, pergunta como um servo como ele poderia fazer tamanhas coisas. Eliseu responde apenas que o Senhor lhe mostrou que ele será rei da Síria. Hazael volta a Ben‑Hadade, diz apenas que o profeta anunciou a recuperação, mas, no dia seguinte, sufoca o rei com um pano molhado, apressando sua própria subida ao trono.
Em Judá, assume Jeorão, filho de Josafá, que se casa com Atalia, filha de Acabe e Jezabel, aproximando espiritualmente Judá da idolatria do Norte.
Ele abandona o caminho reto de seus antepassados e anda nos caminhos da casa de Acabe, espalhando culto pagão e violência. Mesmo assim, por respeito à aliança feita com Davi, Deus não destrói Judá, mantendo ainda uma lâmpada acesa em Jerusalém.
No entanto, reinados turbulentos seguem: Edom se rebela contra Judá, Líbnã também, e Jeorão morre sem deixar luto sincero atrás de si. Depois dele, reina Acazias, igualmente influenciado pela casa de Acabe, que se envolve nas guerras com a Síria e aproxima cada vez mais o destino de Judá daquele de Israel.
A unção de Jeú e a queda de Jezabel
Numa hora marcada para o juízo, Eliseu convoca um dos “filhos dos profetas” e o envia a Ramote‑Gileade, onde Jeú, comandante militar, está reunido com os capitães.
O jovem profeta deve separá‑lo em uma sala, derramar azeite sobre sua cabeça e proclamar: “Assim diz o Senhor: Unjo‑te rei sobre Israel”, instruindo‑o a exterminar a casa de Acabe, para que Deus vingue o sangue dos profetas e servos mortos sob aquele regime. O rapaz cumpre a missão com rapidez e foge imediatamente, como lhe fora ordenado.
Jeú volta ao círculo dos oficiais. Estes o pressionam para saber o que aquele “louco” profeta disse; ele tenta minimizar, mas acaba relatando a unção.
Ao ouvir, os capitães reconhecem o chamado, estendem seus mantos nos degraus sob Jeú, tocam trombetas e o aclamam como novo rei de Israel. Sabendo que Jorão, filho de Acabe, ferido em batalha contra a Síria, convalesce em Jezreel, Jeú trama para que ninguém fuja de Ramote e leve notícia a Jorão. Ele parte em sua carruagem, conduzindo com tanta fúria que o vigia em Jezreel reconhece de longe seu estilo de direção.
Jorão, rei de Israel, e Acazias, rei de Judá, saem em carros separados para encontrar Jeú no campo de Nabote, o jezreelita, lugar carregado de significado, pois ali Acabe e Jezabel haviam cometido injusto derramamento de sangue.
Quando se encontram, Jorão pergunta se há paz; Jeú responde que não pode haver paz enquanto perdurarem as prostituições de Jezabel e suas feitiçarias.
Percebendo a traição, Jorão tenta fugir, mas Jeú o fere pelas costas com uma flecha que atravessa seu coração. O corpo do rei é jogado no campo de Nabote, lembrando a profecia de Elias sobre a punição do sangue inocente derramado ali.
Acazias tenta escapar por outra rota, mas Jeú o atinge também; o rei de Judá morre pouco depois, cumprindo igualmente a palavra de juízo.
Ao chegar a Jezreel, Jeú é aguardado por Jezabel. A famosa rainha, já envelhecida, se enfeita, pinta os olhos e se posta à janela, tentando manter sua pose altiva e sedutora até o último instante.
Ela tenta desmoralizar Jeú, chamando‑o de assassino, comparando‑o a Zinri, que matou seu senhor e pereceu. Jeú ergue os olhos e pergunta quem, entre os eunucos da rainha, está com ele.
Dois ou três se mostram favoráveis; ele manda que a lancem pela janela. Jezabel é precipitada, seu sangue espirra nas paredes e nos cavalos, que a pisoteiam.
Jeú entra, come e bebe, e então ordena que a sepultem, pois era filha de rei. Mas, ao irem buscá‑la, encontram apenas o crânio, os pés e as mãos – os cães haviam devorado o resto, exatamente como Elias profetizara: no campo de Jezreel, os cães comeriam o corpo de Jezabel e dela não ficaria o bastante para ser enterrado com honra.
O extermínio da casa de Acabe e dos adoradores de Baal
Jeú prossegue sua obra de juízo. Em Samaria estão setenta filhos de Acabe, criados sob a proteção de líderes e anciãos. Jeú envia cartas a esses responsáveis, desafiando‑os a pôr um dos filhos de seu senhor no trono e a lutar por ele.
A carta é provocativa: se são realmente fortes, que defendam a dinastia de Acabe. A resposta é medo absoluto: eles reconhecem que já dois reis, Jorão e Acazias, caíram diante de Jeú; recusam enfrentar aquele homem e se submetem.
Jeú manda então uma segunda carta, ordenando que decapitem os setenta príncipes e lhe enviem as cabeças em Jezreel. A ordem é executada; as cabeças são empilhadas à entrada da cidade.
Na manhã seguinte, Jeú se coloca diante do povo e, com discurso calculado, afirma que eles são inocentes naquele derramamento, pois foram os líderes de Samaria que executaram os filhos de Acabe, mas destaca que, em tudo, cumpre‑se a palavra do Senhor anunciada por Elias; nada do que Deus disse a respeito da casa de Acabe cai por terra.
Em Jezreel e depois em Samaria, Jeú elimina parentes, aliados, sacerdotes e servos ligados à família de Acabe, varrendo qualquer remanescente significativo daquela dinastia.
No caminho, encontra‑se com Jonadabe, filho de Recabe, homem conhecido por sua fidelidade ao Senhor e estilo de vida austero. Jeú lhe estende a mão e, literalmente, pede que veja seu zelo pelo Senhor; Jonadabe sobe em sua carruagem, associando‑se simbolicamente à sua purga (processo de limpeza para eliminar substâncias indesejadas).
Em seguida, Jeú passa ao ataque frontal contra o culto a Baal. Ele convoca uma grande assembleia, fingindo ser ainda mais devoto de Baal do que Acabe, e ordena que todos os profetas, sacerdotes e adoradores de Baal sejam reunidos no grande templo do ídolo em Samaria, sob a promessa de um grande sacrifício.
Quando tem certeza de que só os baalistas estão ali – tendo feito retirar quaisquer adoradores do Senhor – Jeú posta guardas e ordena que ninguém saia vivo.
Depois de oferecer ele mesmo um sacrifício, sinal de sua dissimulação, dá o comando, e soldados entram e passam todos ao fio da espada, derrubam a coluna sagrada e destroem completamente o templo, transformando o lugar em latrina pública, para marcar a humilhação total do antigo culto. O autor sagrado registra que Jeú, assim, exterminou Baal de Israel.
Entretanto, o texto também ressalta a ambiguidade da figura de Jeú. Apesar de cumprir com zelo a destruição da casa de Acabe e do culto a Baal, ele não se afasta dos pecados de Jeroboão, o primeiro rei do Norte: continua tolerando e mantendo os bezerros de ouro em Betel e Dã, símbolos de culto rival à adoração em Jerusalém.
Por isso, Deus promete que seus filhos se assentarão no trono até a quarta geração, como recompensa parcial, mas também permite que Israel continue a perder territórios para Hazael, rei da Síria, como disciplina contínua.
Atalia usurpa o trono e Joás é preservado
Enquanto no Norte ocorre a revolução de Jeú, em Judá a situação também se torna crítica. Atalia, mãe de Acazias e neta de Omri, ao saber da morte do filho, levanta‑se e manda exterminar toda a descendência real de Judá, na tentativa de eliminar qualquer herdeiro davídico e firmar uma nova dinastia ligada à casa de Acabe.
Todavia, Jeoseba, irmã de Acazias e esposa do sacerdote Joiada, consegue salvar o menino Joás, ainda bebê. Ela o esconde junto com sua ama numa câmara interior do templo, protegendo‑o da matança.
Durante seis anos, Joás é guardado dentro da casa do Senhor, enquanto Atalia reina sobre Judá. A rainha governa como usurpadora, provavelmente introduzindo práticas idolátricas ligadas à tradição de sua família.
No sétimo ano, o sacerdote Joiada decide agir. Ele faz uma aliança com os capitães, guardas e líderes do povo, instruindo cuidadosamente um plano que aproveita a troca de turnos da guarda no sábado.
Uma parte da guarda cuida do palácio, outra das portas do templo e uma terceira o cerca; as armas antigas de Davi, guardadas no templo, são distribuídas aos homens.
Joiada traz Joás para fora, coloca nele a coroa e o “testemunho” (provavelmente um documento da aliança ou símbolo da Lei), unge o menino e o apresenta ao povo junto à coluna tradicional onde os reis se colocavam.
As trombetas soam, e o povo clama “Viva o rei!”, celebrando a restauração da linhagem de Davi. Atalia, ouvindo o barulho, entra no templo, vê o menino rei cercado por oficiais e o povo exultando. Desesperada, rasga as vestes e grita “Traição! Traição!”.
Joiada ordena que não a matem no templo, para não profaná‑lo. Ela é escoltada até o caminho da entrada dos cavalos, junto à casa do rei, e ali é morta pela espada.
Em seguida, Joiada promove uma aliança tripla entre o Senhor, o rei e o povo, renovando o compromisso de serem o povo de Deus.
O templo de Baal em Jerusalém é destruído, os altares são derrubados e suas imagens quebradas, e o sacerdote de Baal é morto.
O povo conduz Joás, ainda criança, do templo ao palácio, e ele se assenta no trono. A terra se alegra, e a cidade se acalma, pois Atalia, a usurpadora, está morta, e a casa de Davi permanece.
Joás e a reparação do templo
Joás começa a reinar em Judá aos sete anos; governa quarenta anos em Jerusalém. Orientado pelo sacerdote Joiada, faz o que é reto aos olhos do Senhor durante o tempo em que o sacerdote o instrui. No entanto, os “altos” – santuários locais onde o povo sacrificava fora de Jerusalém – não são removidos, apontando para uma reforma incompleta.
Preocupado com a casa do Senhor, Joás decide reparar as fendas e danos do templo. Ele ordena que todo o dinheiro consagrado – tributos religiosos, votos, ofertas voluntárias – seja destinado a essa obra.
Os sacerdotes devem recolher esses valores e empregá‑los na restauração do edifício. Anos se passam, porém, e no vigésimo terceiro ano de Joás ainda não há reparos significativos.
O rei chama Joiada e os demais sacerdotes e os confronta: por que as obras não avançam? A partir daí, ordena que os sacerdotes deixem de gerir diretamente o dinheiro e que os valores sejam aplicados exclusivamente na obra.
Uma arca é colocada junto ao altar, com uma abertura na tampa, e todos os que trazem dinheiro à casa do Senhor o depositam ali. Quando a arca se enche, o secretário do rei e o sumo sacerdote contam e ensacam o dinheiro, entregando‑o aos supervisores da obra.
Esses recursos são distribuídos a carpinteiros, construtores, pedreiros, cortadores de pedra, e usados para comprar madeira e materiais de construção. O texto destaca a integridade dos administradores: não se exigem prestações de contas detalhadas, porque eles agem com fidelidade.
Por outro lado, com esse dinheiro não se fazem utensílios de prata ou ouro; toda a verba vai para a estrutura física do templo, deixando os objetos litúrgicos para outro momento.
Num plano político, Hazael, rei da Síria, avança contra Judá, conquista Gate e ameaça Jerusalém. Para evitar a destruição da cidade, Joás recorre a um expediente doloroso: pega todas as coisas consagradas pelos reis anteriores (Josafá, Jeorão, Acazias) e por ele próprio, além do ouro dos tesouros do templo e do palácio, e envia como tributo a Hazael. O rei sírio se retira, poupando Jerusalém, mas ao custo de empobrecer a casa do Senhor.
Mais tarde, conspiradores se levantam contra Joás. Ele é ferido por seus servos na casa de Milo, no caminho que desce a Sila, e morre. É sepultado com seus pais na cidade de Davi, e Amasias, seu filho, reina em seu lugar.
O texto deixa implícito que, após a morte de Joiada, Joás se desviou, o que em Crônicas aparece com mais detalhes, contribuindo para o desfecho trágico de seu reinado.
Joacaz, Jeoás e a morte de Eliseu
Em Israel, após Jeú, sobe ao trono seu filho Joacaz. Ele segue os pecados de Jeroboão, mantendo os bezerros de ouro e não se desviando da idolatria instituída desde o início do reino do Norte.
Como consequência, o Senhor entrega Israel repetidas vezes nas mãos de Hazael, rei da Síria, e depois de seu filho Ben‑Hadade. O exército israelita é drasticamente reduzido; o povo geme sob opressão.
Joacaz suplica ao Senhor, e Deus, por compaixão, levanta um libertador para Israel (não nomeado explicitamente nesse ponto), aliviando a pressão síria, mas a idolatria persiste, e os altares de pecado permanecem erguidos.
Após Joacaz, reina seu filho Jeoás (também chamado Joás de Israel). Ele governa em Samaria, mantendo igualmente os pecados de Jeroboão e não deixando a idolatria nacional.
É nesse tempo que reencontramos Eliseu, já velho e enfermo da doença de que morreria. Jeoás vai visitá‑lo e, movido de respeito e emoção, exclama: “Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros!”, repetindo as palavras que Eliseu dissera por ocasião da ascensão de Elias. O rei reconhece no profeta a verdadeira defesa de Israel, mais do que carros e cavalos humanos.
Eliseu ordena que o rei tome um arco e flechas. Jeoás obedece; o profeta coloca as mãos sobre as mãos do rei, pedindo que ele abra a janela para o oriente e atire uma flecha.
Ao disparar, Eliseu declara ser a “flecha da vitória do Senhor, a vitória sobre a Síria”. Em seguida, manda que Jeoás golpeie o chão com as flechas. O rei as bate três vezes e para.
Eliseu se ira; diz que, se tivesse golpeado cinco ou seis vezes, destruiria a Síria por completo; agora, porém, só a ferirá três vezes. A cena revela a mistura de fé e limitação do rei, e como sua falta de ímpeto restringe o alcance da vitória.
Eliseu morre e é sepultado. Mais tarde, bandos de moabitas costumam invadir a terra na primavera. Numa dessas ocasiões, homens que estavam enterrando um morto veem um desses bandos; assustados, lançam o corpo apressadamente no túmulo de Eliseu e fogem.
Ao tocar nos ossos do profeta, o cadáver revive e se levanta sobre os pés. Esse episódio singular reforça a ideia de que, mesmo morto, o profeta permanece, por assim dizer, veículo de vida, testemunhando o poder do Deus que o acompanhou durante toda a existência.
No plano político, Hazael continua oprimindo Israel, mas, após sua morte, Ben‑Hadade, seu filho, perde sucessivamente cidades para Jeoás de Israel, em três vitórias, exatamente de acordo com a palavra de Eliseu.
Desse modo, o livro mostra que, apesar da infidelidade persistente dos reis, Deus continua intervindo por meio de seus profetas, preservando um resto e mantendo viva a esperança de seu povo.
Anotações do Autor
Sete anos de fome em Reis x sete anos em Gênesis
Nos dois casos, Deus anuncia antecipadamente um período prolongado de fome, que funciona como juízo e prova, mas também como cenário para preservar e reordenar vidas (Egito/Jacó no caso de José; a sunamita em 2 Reis 8).
Coincidência ou providência na cena da sunamita?
O texto coloca a sequência de modo intencional: o rei pede a Geazi que conte os feitos de Eliseu, ele fala justamente da ressurreição do filho, e nesse exato momento a mulher entra para pedir a restituição.
A leitura bíblica e devocional clássica entende isso como providência divina (Deus coordenando circunstâncias) e não como mera coincidência: o Deus que a guiou para sair da terra também a conduz de volta no momento certo.
Devolução de terras x Direito Civil brasileiro
O rei manda:
- devolver à sunamita sua casa e suas terras;
- restituir “todos os frutos das terras, desde o dia em que deixou a terra até agora”.
Em termos de Direito Civil brasileiro, isso lembra:
- reivindicação do bem imóvel (ação reivindicatória, art. 1.228 CC, por exemplo, em termos gerais):
- restituição de frutos percebidos e percebíveis pelo possuidor de má‑fé, com obrigação de devolver o que auferiu durante o período de posse injusta (artigos sobre frutos, boa‑fé/má‑fé possesória).
Aqui, o rei atua como instância soberana que ordena restituição integral, com caráter mais próximo de uma decisão equitativa e paterna do que de sentença técnica, mas a lógica é semelhante à de devolver não só o bem, mas também o ganho indevido de quem o explorou em seu lugar.
Presentes aos profetas: agrado, “cachê” ou fé?
Na Bíblia, levar presentes a profetas/ou homens de Deus tem mais de um sentido:
- gesto de honra e reconhecimento (não ir “de mãos vazias” a quem representa Deus);
- expressão de gratidão;
- às vezes, expectativa de receber resposta favorável ou milagre.
A tradição não apresenta isso como “compra de profecia” legítima; quando há tentativa de compra (como Simão em Atos ou Geazi em 2 Reis 5), isso é condenado.
O ideal bíblico é: o profeta fala o que Deus manda, independente do presente; e o presente é oferta voluntária de honra, não preço contratual por serviço profético.
Por que Deus “ama tanto” Davi? Há paralelos?
A Bíblia destaca em Davi:
- coração sensível, que peca gravemente, mas se arrepende de forma profunda e pessoal;
- confiança em Deus na adversidade;
- compromisso com a aliança, apesar das falhas.
Por isso, Davi é chamado “homem segundo o coração de Deus” em termos de orientação do coração (busca, arrependimento, confiança) e não de perfeição moral.
Paralelos:
- Enoque, que “andou com Deus” e foi tomado, visto como figura de intimidade única com o Senhor;
- Abraão, chamado “amigo de Deus”, pela fé e obediência.
Todos expressam, com linguagens diferentes, a ideia de relação de amizade e aliança profunda, apesar da fragilidade humana.
Jeú comendo enquanto os cães comem Jezabel
A cena mostra Jeú comendo e bebendo após mandar matar Jezabel, antes mesmo de ordenar sepultamento.
Simbologicamente:
- reforça o tom de juízo frio e inexorável: enquanto o corpo é devorado pelos cães, cumprindo a palavra profética, o executor do juízo mantém sua rotina;
- acentua a humilhação total de Jezabel, que antes se banqueteava em luxo e agora é comida por cães, sem luto nem honra.
Não se sugere que Jeú esteja “errado” nesse ponto específico; a ênfase do texto é o cumprimento da profecia e a ironia amarga da cena.
Jeú fingindo devoção a Baal: consultado ou iniciativa própria?
O texto não relata qualquer consulta ao Senhor para a estratégia de reunir os adoradores de Baal com um falso culto a fim de exterminá‑los; isso aparece como estratégia militar/política própria de Jeú.
A Bíblia reconhece que ele cumpriu o que Deus ordenou quanto à casa de Acabe e ao culto de Baal, mas também critica o fato de ele não se afastar dos bezerros de Jeroboão, mantendo idolatria.
Ou seja: Deus usa Jeú como instrumento de juízo, mas não o apresenta como modelo de coração puro; sua astúcia pode até servir ao plano divino, sem que todos seus métodos sejam santificados ou fruto de instrução direta.
Por que bezerros como imagens?
Os bezerros de ouro (Jeroboão, Betel e Dã) remetem:
- ao episódio do bezerro de ouro no Sinai (Êxodo 32), ícone de desvio logo após o êxodo;
- à simbologia de força, fertilidade e poder agrícola, muito presente nas religiões cananeias.
Jeroboão usa a figura do bezerro possivelmente como “pedestal” ou representação de Yahweh (“estes são os deuses que te tiraram do Egito”), tentando criar um culto “alternativo” ao de Jerusalém.
O problema é que, mesmo se pretendiam representar Yahweh, a forma toma lugar de ídolo, repetindo a transgressão original: tentar controlar/visualizar Deus à nossa maneira, misturando‑o com símbolos de poder pagão.
Sete anos até Joás ser coroado: idade ou símbolo?
O texto destaca que Joás tinha sete anos quando começou a reinar, após ter sido escondido seis anos no templo.
Do ponto de vista histórico, faz sentido: sete anos é a idade em que uma criança já pode ser apresentada publicamente, instruída e cercada por regentes.
Do ponto de vista simbólico, o sete é número de plenitude/completude na Bíblia; muitos comentaristas veem aqui também a ideia de que o “tempo do mal” de Atalia é plenamente completado antes da restauração da casa de Davi.
Portanto, é simultaneamente questão prática e marca simbólica de ciclo completo de usurpação e, então, de restauração.
Flechas no leito de morte: simbolismo e outros exemplos
No caso de Eliseu:
- a flecha lançada pela janela é declarada como “flecha da vitória do Senhor” contra a Síria;
- as flechas batidas no chão simbolizam o número de vitórias futuras; parar cedo limita o alcance da vitória.
É um gesto profético‑sacramental: uma ação física que representa e, de certo modo, inaugura uma realidade espiritual/histórica (vitórias militares).
Ossos de Eliseu e relíquias de santos
O fato de um morto ressuscitar ao tocar os ossos de Eliseu mostra que:
- Deus pode, se quiser, operar milagre mediado até por restos mortais de um servo seu;
- a “virtude” não está no osso em si como objeto mágico, mas na ação soberana de Deus, ligada à história daquele profeta.
A teologia católica usa textos como esse (junto com a mulher que toca o manto de Jesus, lenços de Paulo, etc.) como apoio bíblico para a ideia de que Deus pode agir por meio de relíquias, não como prova de que elas têm poder inerente.
Protestantes, em geral, veem o episódio como evento único e não normativo, e alertam contra qualquer culto ou confiança em objetos.
Então: o texto pode ser usado como fundamento de princípio (Deus pode operar por meio de corpos/objetos ligados a santos), mas não obriga a prática de veneração de relíquias; isso depende da tradição teológica em que você se move.
Idolatria, infidelidade e o caos atual
Na Bíblia, a queda moral e social de Israel/Judá é diretamente ligada à idolatria e à quebra da aliança: injustiça, violência, corrupção política e colapso nacional são vistos como fruto de afastar‑se de Deus.
Aplicando aos nossos dias, muitas leituras cristãs entendem que, trocar Deus por ídolos modernos (dinheiro, poder, consumo, ideologias absolutizadas) produz o mesmo padrão:
- desumanização;
- injustiça estrutural;
- guerras;
- destruição ambiental;
- crise de sentido.
Teologicamente, sim, pode‑se dizer que a propensão à idolatria e à rebelião contra Deus é raiz profunda do caos contemporâneo; sociologicamente, isso se traduz em sistemas que colocam a criatura, e não o Criador, no centro, com consequências destrutivas.






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