A doença de Ezequias, o sinal do relógio e a visita babilônica
Ezequias, o rei que confiara no Senhor contra Senaqueribe, entra em nova prova. Adoece gravemente, a ponto de estar “à morte”. Isaías, o profeta, visita o palácio com uma mensagem dura:
“Põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás.”
Ao ouvir isso, Ezequias volta o rosto para a parede, ora intensamente e lembra diante de Deus sua caminhada de fidelidade, chorando com grande amargura. Antes que Isaías saia do pátio, a palavra do Senhor o alcança de novo: ele deve voltar e dizer ao rei que Deus ouviu sua oração, viu suas lágrimas e acrescentará quinze anos à sua vida, além de livrar Jerusalém das mãos do rei da Assíria, defendendo a cidade por amor de si mesmo e por amor de Davi.
Isaías orienta que se aplique um bolo de figos sobre a chaga do rei; o tratamento simples acompanha a promessa divina, e Ezequias começa a sarar.
O rei, contudo, pede um sinal de que realmente subirá ao templo no terceiro dia. O profeta lhe propõe um sinal ligado ao “relógio de sol de Acaz”: a sombra deve avançar dez graus ou voltar dez graus.
Ezequias prefere o mais difícil – que a sombra retroceda. Isaías clama ao Senhor, e, milagrosamente, a sombra volta dez degraus, indicando que o mesmo Deus que domina o tempo está estendendo os dias do rei.
Em seguida, surge outro desafio, agora político‑espiritual. Merodaque-Baladã, rei da Babilônia (ainda não o império dominante, mas já um poder emergente), envia mensageiros com cartas e presentes, por ter ouvido da doença e da recuperação de Ezequias.
Lisonjeado, o rei de Judá recebe os babilônios com entusiasmo e mostra tudo: tesouros de prata e ouro, especiarias, óleos finos, armaria, todo o arsenal e os depósitos de riquezas; não há nada em seu reino que ele não expõe aos visitantes, como se quisesse impressioná‑los.
Depois que os emissários partem, Isaías vem novamente ao palácio e interroga: quem eram aqueles homens? De onde vieram? O que viram? Ezequias responde com simplicidade, quase orgulho: vieram de uma terra distante, Babilônia, e viram tudo o que há em minha casa.
Então o profeta anuncia um oráculo duro: virão dias em que tudo o que está na casa do rei, e o que seus pais acumularam, será levado a Babilônia; nada ficará. Até descendentes de Ezequias serão levados para servir como eunucos no palácio do rei babilônico.
O rei responde de modo ambíguo: reconhece que a palavra do Senhor é boa, e se consola com a ideia de que, ao menos em seus dias, haverá paz e segurança, sem se deter tanto na tragédia futura.
O capítulo encerra resumindo as obras de Ezequias, incluindo a construção de um aqueduto que traz água à cidade (o famoso túnel de Ezequias), e registrando sua morte; seu filho Manassés passa a reinar em seu lugar.
Manassés e Amom: a reversão da reforma
Manassés sobe ao trono de Judá com apenas doze anos e reina longos cinquenta e cinco anos, tornando‑se um dos reis mais ímpios da história de Jerusalém.
Ele desfaz praticamente tudo o que seu pai Ezequias fizera em favor da pureza do culto. Reconstrói os altos que Ezequias havia destruído, levanta altares a Baal, ergue postes de Aserá, se inclina diante de todos os exércitos dos céus e constrói altares a esses deuses nos pátios do próprio templo do Senhor.
Manassés chega ao ponto extremo de colocar uma imagem esculpida dentro da casa de Deus, profanando o lugar em que o Senhor havia dito que colocaria seu nome para sempre.
Ele oferece um de seus filhos como sacrifício no fogo, pratica adivinhação, feitiçaria, consulta médiuns e espíritas, e leva Judá a fazer pior do que as nações que haviam sido expulsas da terra.
O texto menciona, ainda, muito sangue inocente derramado, enchendo Jerusalém de violência; eles se afastam completamente da Lei.
O Senhor fala por meio de seus profetas, declarando que, por causa da maldade de Manassés, trará tal calamidade sobre Jerusalém e Judá que “todo aquele que ouvir retinir‑lhe‑ão ambos os ouvidos”.
Ele medirá Jerusalém com a mesma linha usada para Samaria e para a casa de Acabe, e limpará a cidade como se limpa um prato, virando‑o de boca para baixo. Isso indica juízo inevitável: a paciência divina alcança seu limite, e o exílio passa a ser questão de tempo.
Manassés morre e é sucedido por Amom, seu filho, que reina apenas dois anos, mas segue as mesmas práticas perversas do pai, adorando ídolos e abandonando o Senhor.
Os servos de Amom conspiram e o matam em sua casa; o povo, por sua vez, mata os conspiradores e estabelece Josias, filho de Amom, como rei.
O capítulo conclui com a sensação de que Judá afundou profundamente na idolatria, preparando o cenário para uma reforma dramática sob Josias, mas também para um juízo que não será completamente revertido.
Josias, o livro da Lei e o coração quebrantado
Josias começa a reinar em Judá com oito anos de idade e reina trinta e um anos em Jerusalém.
Diferente de seu pai e de seu avô, ele anda nos caminhos de Davi, sem se desviar nem para a direita nem para a esquerda, sinal de fidelidade rara.
No décimo‑oitavo ano de seu reinado, preocupado com o estado da casa do Senhor, ele ordena que o sumo sacerdote Hilquias recolha o dinheiro trazido ao templo e o entregue aos encarregados da obra, para reparos estruturais: madeiras, pedras lavradas, pagamento de carpinteiros e pedreiros.
O texto ressalta a integridade dos trabalhadores, com quem não se faz muita prestação de contas porque procedem com fidelidade.
Durante esse processo de restauração, algo inesperado acontece. Hilquias encontra “o livro da Lei” na casa do Senhor – provavelmente uma cópia da Torá, possivelmente centrada em Deuteronômio – que, de algum modo, havia caído em esquecimento prático.
Ele entrega o livro ao escriba Safã, que o lê, e este, por sua vez, o leva ao rei. Depois de informar sobre o andamento da obra e o uso do dinheiro, Safã menciona o livro e o lê em voz alta diante de Josias.
Ao ouvir as palavras da Lei, o rei rasga as vestes, sinal de profunda comoção e horror espiritual. Ele percebe quão distante o povo está dos mandamentos e quão justa é a ira divina anunciada ali.
Josias ordena que Hilquias e outros oficiais “consultem o Senhor” a respeito das palavras do livro, não apenas por ele, mas por todo Judá, pois o furor de Deus se acendeu contra eles, já que seus pais não obedeceram à Lei.
A delegação vai até a profetisa Hulda, que mora em Jerusalém. Ela transmite uma mensagem de duas faces:
- para Judá e Jerusalém: Deus trará o mal anunciado no livro, por causa da idolatria e da incensação (culto por meio de queima de incensos) a outros deuses; o furor se acendeu e não se apagará;
- para o rei: porque seu coração se enterneceu, porque se humilhou, rasgou as vestes e chorou diante do Senhor, ele será recolhido em paz à sua sepultura, e não verá com seus próprios olhos todo o mal que virá.
Assim, o capítulo prepara o terreno para a grande reforma de Josias no capítulo seguinte, mostrando como a redescoberta da Palavra produz quebrantamento e ação.
A reforma de Josias e a Páscoa restaurada
Josias convoca todos os anciãos de Judá e de Jerusalém, sobe à casa do Senhor, acompanhado por sacerdotes, profetas e todo o povo, desde o pequeno até o grande.
Ali, o rei lê em voz alta todas as palavras do livro da aliança, encontrado no templo, diante da assembleia. Em seguida, de pé junto à coluna real, faz uma aliança na presença do Senhor: compromete‑se a andar após o Senhor, guardar seus mandamentos, testemunhos e estatutos com todo o coração e alma, e cumprir as palavras daquele livro; o povo, por sua vez, concorda com a aliança.
A reforma se materializa em ações drásticas. Josias ordena que se retirem do templo todos os utensílios feitos para Baal, Aserá e todo o exército dos céus; eles são queimados fora de Jerusalém, e suas cinzas levadas a Betel, lugar carregado de idolatria antiga.
Ele destitui os sacerdotes idólatras instituídos por reis anteriores, que queimavam incenso nos altos de Judá, e profana os altos, quebrando colunas e cortando postes sagrados, além, de derrubar a casa de prostituição cultual que estava no templo, onde mulheres teciam tendas para Aserá.
Josias estende a reforma para além de Judá. Vai a Betel, destrói o altar e o alto construídos por Jeroboão, quebra a coluna, queima o poste de Aserá.
Ali, vê o túmulo do “homem de Deus” que, séculos antes, havia profetizado contra aquele altar, e poupa seu túmulo e o do profeta que morava em Betel, reconhecendo o cumprimento da antiga palavra.
Ele ainda remove altares construídos pelos reis de Judá nas alturas ao norte da cidade, destrói lugares de culto idólatra edificados por Salomão para deuses estrangeiros nos arredores de Jerusalém.
O rei também elimina práticas de necromancia, adivinhação, ídolos, abominações em todo Judá e Jerusalém, buscando cumprir a Lei de Moisés de maneira radical (ou seja, conforme sua "raiz").
O texto declara que, antes dele, não houve rei que se convertesse ao Senhor com todo o coração, alma e forças, segundo toda a Lei, nem depois se levantou outro igual.
Josias ordena, ainda, a celebração da Páscoa ao Senhor, como está escrito no livro.
A Páscoa celebrada naquele ano em Jerusalém é descrita como algo que não acontecia daquela forma desde os dias dos juízes, ou dos reis de Israel e de Judá, sublinhando seu caráter único.
Apesar da reforma, porém, o texto lembra que o Senhor não desistiu do grande furor provocado por Manassés; a sentença de destruição e exílio permanece, ainda que adiada.
O capítulo termina com o relato da morte trágica de Josias: ele se envolve em batalha com o faraó Neco, do Egito, em Megido, é ferido e morre; seu corpo é trazido a Jerusalém, e seu filho Jeoacaz é entronizado.
O início do cativeiro de Judá
Após Josias, seu filho Jeoacaz reina brevemente e é deposto pelo faraó Neco; em seu lugar, outro filho de Josias, Jeoaquim, assume e torna‑se vassalo do Egito.
Em seguida, Nabucodonosor, rei da Babilônia, aparece em cena. Jeoaquim é submetido ao rei babilônico por três anos, mas depois se rebela. Como resposta, o Senhor envia contra Judá tropas de caldeus, sírios, moabitas e amonitas, para destruí‑la, conforme as palavras dos profetas; o texto afirma explicitamente que isso aconteceu “por mandado do Senhor”, por causa dos pecados de Manassés, inclusive o sangue inocente derramado, e que o Senhor não quis perdoar.
Jeoaquim morre, e seu filho Joaquim (Jeconias) reina em seu lugar, mas apenas por três meses.
Nesse tempo, Nabucodonosor cerca Jerusalém. Joaquim, sua mãe, servos, príncipes e oficiais saem para se entregar ao rei da Babilônia; eles são levados cativos no oitavo ano do reinado de Nabucodonosor.
Tesouros da casa do Senhor e do palácio são saqueados; os utensílios de ouro feitos por Salomão para o templo são quebrados, conforme a palavra antiga.
O rei da Babilônia deporta toda a elite: príncipes, homens valentes, artesãos, ferreiros – cerca de dez mil pessoas; apenas o povo pobre da terra fica para cultivar vinhas e campos.
No lugar de Joaquim, Nabucodonosor estabelece Matanias, tio do rei, mudando seu nome para Zedequias. Zedequias tem vinte e um anos quando começa a reinar e governa onze anos; faz o que é mau aos olhos do Senhor, seguindo o exemplo de Jeoaquim.
O texto adiciona: isso se dá por causa da ira de Deus contra Judá e Jerusalém, até os rejeitar de sua presença. Mesmo assim, Zedequias se rebela contra o rei da Babilônia, preparando o cenário para a tomada definitiva de Jerusalém narrada no capítulo seguinte.
A queda de Jerusalém e o fim do reino
No nono ano do reinado de Zedequias, no décimo mês, Nabucodonosor volta com todo o seu exército, cerca Jerusalém e levanta rampas e obras de cerco ao redor.
O bloqueio dura até o décimo primeiro ano de Zedequias; a fome aumenta terrivelmente na cidade, até não haver pão para o povo.
Finalmente, uma brecha é aberta no muro; de noite, os soldados de Judá e o rei fogem por uma passagem entre dois muros, perto do jardim do rei, seguindo pela campina. O exército caldeu, porém, os persegue e alcança Zedequias nas planícies de Jericó; seus soldados se dispersam, e o rei é capturado.
Zedequias é levado a Ribla, onde está o rei da Babilônia. Ali, sua sentença é cruel:
- os filhos de Zedequias são mortos diante de seus olhos;
- em seguida, seus olhos são vazados, e ele é acorrentado com grilhões de bronze e levado para Babilônia.
Assim, vê sua descendência ser destruída e, depois, não vê mais nada – juízo que combina com a cegueira espiritual anterior.
No décimo nono ano de Nabucodonosor, Nebuzaradã, comandante da guarda, vem a Jerusalém. Ele queima a casa do Senhor, o palácio real e todas as casas importantes; o exército caldeu derruba os muros da cidade.
Nebuzaradã leva cativos o restante do povo que ainda ficara na cidade e aqueles que haviam se rendido, deixando apenas alguns dos mais pobres como vinhateiros e lavradores.
As grandes colunas de bronze do templo, o “mar de bronze” e as bases são quebrados e levados para Babilônia, junto com caldeirões, pás, apagadores, perfumadores, braseiros, bacias e outros utensílios de ouro e prata – o saque é total.
O comandante leva também o sumo sacerdote Seraías, o segundo sacerdote Zefanias, três guardas da porta, um alto oficial militar, cinco homens que serviam ao rei, o escriba‑mor que recrutava o povo para o exército e sessenta homens do povo que estavam na cidade.
Eles são levados a Ribla e executados pelo rei da Babilônia. O texto então coloca a frase dura e final:
“Assim Judá foi levado cativo para fora da sua terra.”
Sobre o remanescente que fica, Nabucodonosor coloca Gedalias, filho de Aicã, como governador, em Mizpá. Ele exorta o povo a não temer os caldeus, a permanecer na terra e servir ao rei da Babilônia, prometendo que tudo irá bem.
Contudo, no sétimo mês, Ismael, da linhagem real, vem com dez homens e assassina Gedalias, bem como judeus e caldeus que estavam com ele. Temendo represálias, o povo restante foge para o Egito, encerrando o relato com dispersão e medo.
O livro termina com uma nota inesperada de esperança. No trigésimo sétimo ano do cativeiro de Joaquim, Evil-Merodaque, novo rei da Babilônia, tira o rei de Judá da prisão, fala bondosamente com ele, eleva seu trono acima dos demais reis cativos, muda suas vestes e lhe concede lugar à mesa real, com provisão diária, todos os dias de sua vida.
Essa pequena cena final sugere que a linhagem davídica, embora humilhada e exilada, não está totalmente extinta; um descendente de Davi ainda vive, sustentado, à espera de algo que, na leitura cristã, aponta para o futuro Messias.
Anotações do Autor
Quando lemos a parte final de 2 Reis (capítulos 20–25), temos a sensação de estar assistindo ao desmoronar de uma nação.
Reis que se levantam e caem, reformas que brilham por um momento e logo são engolidas pela idolatria, muralhas derrubadas, templo em chamas, povo exilado. E, ainda assim, por trás de cada cena, há um fio condutor: Deus continua agindo “por amor de si mesmo”, fiel ao próprio caráter, mesmo quando tudo parece perdido.
Neste texto, quero extrair algumas lições desse trecho dramático da história bíblica e aproximá‑las da nossa realidade hoje.
Quando Deus age “por amor de si mesmo”
À primeira vista, essa expressão pode soar estranha. Se um ser humano dissesse que faz tudo “por amor a si mesmo”, pensaríamos em egoísmo. Mas, em Deus, isso significa outra coisa.
Na Bíblia, agir “por amor do seu nome” é agir em coerência com quem Ele é: santo, justo, fiel, misericordioso.
Deus não pode negar a si mesmo. Se Ele prometeu, mantém. Se Ele é santo, não compactua para sempre com o pecado. Se Ele é misericórdia, não abandona de vez um povo, mesmo disciplinando‑o.
Em termos práticos, isso significa que a nossa esperança não está na constância do nosso amor por Deus, mas na constância do amor de Deus por Ele mesmo – e, por consequência, por nós. Ele não nos sustenta porque merecemos, mas porque decidiu ser fiel.
Ezequias: o perigo de exibir os tesouros
Depois de ter a vida prolongada e Jerusalém milagrosamente livra da Assíria, Ezequias recebe uma visita ilustre: embaixadores vindos da Babilônia. Ele se alegra com isso – e se empolga. Abre as portas do seu palácio, mostra todos os tesouros, o arsenal, as riquezas do templo. Não esconde nada.
Isaías vem em seguida com uma pergunta simples e devastadora:
“O que viram em tua casa?”
O profeta então revela: aquilo que Ezequias exibiu com orgulho será exatamente o que os babilônios levarão.
Há aqui um retrato do nosso coração: Depois de uma grande vitória, é fácil trocar a gratidão pela vaidade.
Em vez de usar as visitas como oportunidade para glorificar a Deus, Ezequias parece usar para glorificar a si mesmo.
Ele abre demais o coração e as portas para quem não teme ao Senhor – e isso tem consequências.
Hoje, não recebemos embaixadores babilônios, mas recebemos elogios, curtidas, convites, propostas. A pergunta de Isaías continua ecoando: “O que viram em tua casa?”. Viram Cristo em nós ou apenas nosso “tesouro” – currículo, bens, talentos, conquistas?
A linha entre testemunho e exibicionismo é fina. E Deus, em sua misericórdia, nos alerta antes que nossa ostentação se torne o prenúncio de ruína.
Josias: arrependimento que gera reforma real
Em contraste com Manassés, um dos reis mais ímpios da história, surge Josias, ainda menino, colocado no trono em meio ao caos.
Anos depois, durante obras no templo, o sumo sacerdote encontra o “livro da Lei” – e esse livro chega às mãos do rei.
Quando as palavras são lidas, Josias não reage com frieza institucional. Ele rasga as vestes. Ele se humilha. Ele sente no peito o peso da distância entre a vontade de Deus e a prática do povo.
Esse arrependimento não fica no campo da emoção. Josias:
- consulta o Senhor por meio da profetisa Hulda;
- renova publicamente a aliança;
- desmonta altares, quebra ídolos, remove sacerdotes idólatras;
- restaura a Páscoa, centraliza novamente o culto em Deus.
Deus responde de forma muito clara: o juízo coletivo virá – as consequências de décadas de idolatria e violência não serão apagadas. Mas, pessoalmente, Josias será recolhido em paz, porque seu coração se humilhou.
Há aqui uma palavra forte para o nosso tempo. Vivemos em uma sociedade adoecida:
- idolatria moderna (dinheiro, poder, fama);
É possível que haja consequências coletivas que não conseguimos evitar por completo. Mas isso não significa que o arrependimento sincero seja inútil.
Quando um coração se dobra diante de Deus, Ele vê. Ele responde. Ele salva, guarda, transforma – mesmo que o mundo à volta continue em turbulência.
Em outras palavras: não deixe o diagnóstico da sociedade servir de desculpa para não se converter de verdade.
O “exército dos céus” e os muitos deuses de ontem e de hoje
Entre as práticas condenadas nos últimos capítulos de 2 Reis está o culto ao “exército dos céus” – astros, constelações, entidades associadas ao sol, à lua e às estrelas. Ao lado disso, aparecem nomes de deuses falsos: Baal, Aserá, Moloque, Dagom, Quemos, entre outros.
Naquela cultura, o ser humano olhava para as forças da natureza – tempestades, fertilidade da terra, guerras, ciclos do céu – e as divinizava. Hoje, pode parecer distante, mas a lógica é semelhante: continuamos inclinados a transformar forças e coisas criadas em absolutos.
Não chamamos de Baal ou Moloque, mas continuamos sacrificando tempo, saúde e às vezes a própria família em altares modernos:
A idolatria, no fundo, não é um tema arqueológico; é um diagnóstico do coração humano em cada geração.
O profeta anônimo de Betel: Deus cumpre o que fala
Em Betel, Josias encontra um túmulo com uma inscrição. Ele pergunta:
“Que monumento é este?”
E fica sabendo que aquela é a sepultura do “homem de Deus que veio de Judá” para profetizar, séculos antes, exatamente contra o altar que ele acabara de destruir.
Esse “homem de Deus” é o profeta anônimo de 1 Reis 13. Não sabemos seu nome, não temos sua biografia, não conhecemos sua genealogia. Sabemos apenas que Deus falou por meio dele – e que, muito tempo depois, a palavra se cumpriu milimetricamente.
Dois recados emergem aqui:
- A Palavra de Deus não morre com o profeta. Ela permanece até se cumprir;
- O importante não é ser famoso, mas ser fiel. O profeta é anônimo, mas sua mensagem atravessa gerações.
Em tempos em que tanta gente busca “visibilidade ministerial”, essa cena em Betel nos convida a outra lógica: você não precisa ser conhecido para ser instrumento de Deus; precisa ser fiel ao que Ele manda falar.
Zedequias: quando o nome não combina com a vida
Nabucodonosor coloca Matanias como rei e muda seu nome para Zedequias, que significa algo como “o Senhor é justiça” ou “o Senhor é minha justiça”.
O novo nome é forte, bonito, teologicamente correto. Só que a vida de Zedequias segue outro rumo: ele se rebela contra Babilônia sem confiar verdadeiramente em Deus, ignora as palavras de Jeremias, persiste no caminho que levará Jerusalém à ruína.
O símbolo aqui é claro: não basta ter um nome bonito, um rótulo religioso ou um discurso certo. Podemos nos chamar “cristãos”, “evangélicos”, “católicos”, “espíritas cristãos”, “filhos da promessa” – se a vida não acompanha o nome, o título se torna ironia.
Zedequias nos lembra que a pergunta central não é “como me identifico?”, mas “como vivo?”.
Evil-Merodaque e Joaquim: um fio de esperança no meio das ruínas
Depois de templo queimado, cidade destruída, rei cego e acorrentado, era de se esperar que 2 Reis terminasse em completo desespero.
Mas o livro conclui com uma nota quase sutil, que muitos leitores passam rápido: no trigésimo sétimo ano do cativeiro, Evil-Merodaque, rei da Babilônia, tira Joaquim da prisão, fala com ele amavelmente, dá-lhe lugar à mesa do rei e providencia sustento diário.
O que isso significa?
- Primeiro, que a linhagem de Davi não foi extinta; um filho de Davi ainda vive, mesmo que cativo;
- Segundo, que Deus, mesmo em contexto de juízo, preserva um resto, uma faísca de esperança;
- Terceiro, que a história não termina na destruição; há algo mais adiante – que, na leitura cristã, aponta para o Messias, descendente de Davi, que viria séculos depois.
É como se Deus escrevesse, nas entrelinhas: “Eu julguei, mas não abandonei. Ainda tenho uma história com o meu povo”.
Conclusão: viver entre juízo e esperança
O fim de 2 Reis nos coloca diante de duas verdades inescapáveis:
- Deus leva a sério o pecado, a idolatria, a injustiça. Reinos caem, templos são destruídos, estruturas religiosas ruem quando são usadas para se afastar, em vez de se aproximar de Deus;
- Deus também leva a sério o arrependimento, a fidelidade, o coração quebrantado. Ele responde a Josias, preserva um resto, mantém a promessa mesmo em meio ao exílio.
Entre Ezequias exibindo tesouros, Manassés mergulhando em idolatria, Josias se quebrantando, Zedequias desonrando seu nome e Joaquim sendo levantado da prisão, somos convidados a fazer escolhas.
Vamos nos gloriar em nossos “tesouros” ou em Deus?
Vamos seguir o fluxo da idolatria cultural ou ouvir de novo o “livro da Lei”?
Vamos nos esconder atrás de títulos religiosos ou buscar que nossa vida faça jus ao nome que carregamos?
Vamos olhar para o caos do mundo e concluir que tudo acabou, ou perceber que Deus ainda preserva uma mesa posta para quem Ele chama?
Talvez o mundo à nossa volta esteja mesmo atravessando um tempo de juízo, colhendo o que semeou.
Mas para quem, como Josias, se volta com sinceridade ao Senhor, a porta da graça continua aberta. E, para quem se vê como Joaquim – humilhado, esquecido, preso em suas próprias escolhas – existe ainda a possibilidade de ouvir a voz de um Rei maior dizer:
“Sai da prisão, vem sentar‑se à minha mesa”.
É nesse espaço tenso entre juízo e esperança que vivemos. E é nesse espaço que Deus continua agindo, por amor de si mesmo – e, por isso mesmo, por amor de nós.