sexta-feira, 17 de abril de 2026

Salmo 22: "O Salmo da Cruz". Grito de abandono que termina em louvor universal

    O Salmo 22 é um dos textos mais profundos do Saltério. Ele começa com o famoso grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, passa por descrições de sofrimento extremo (físico, emocional e espiritual) e termina com um inesperado movimento de confiança e louvor, que se abre até às nações e às futuras gerações.

    Na tradição cristã, ele é lido à luz da Paixão de Cristo, mas também permanece oração forte para qualquer fiel que passa por experiências de abandono e perseguição.


Versículo a versículo (Salmo 22 – estrutura e sentido)

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Longe está de minha salvação a palavra de meu bramido."

    O salmo se abre com um clamor brutalmente honesto: o orante se sente abandonado por Deus. Ele grita, mas tem a impressão de que a salvação está longe, que Deus não responde.

"Meu Deus, eu clamo de dia, e não me respondes; e de noite, e não encontro descanso."

    A experiência é de oração insistente e silêncio prolongado. Dia e noite o salmista chama por Deus, mas a ausência de resposta produz insônia, falta de descanso interior.

"E, no entanto, tu és o Santo, que habitas no louvor de Israel."

    Mesmo sentindo abandono, ele afirma a fé: Deus continua sendo o Santo, o totalmente outro, que habita no meio dos louvores do seu povo. Não há rompimento de fé, mas tensão entre o que crê e o que sente.

"Nossos pais em ti confiaram, confiaram, e tu os libertaste. A ti clamaram, e foram salvos; confiaram em ti, e não foram confundidos."

    O orante lembra a história. Seus antepassados confiaram, clamaram e foram libertos, não ficaram decepcionados. Isso torna ainda mais dolorosa a sensação atual: “contigo eles foram atendidos; por que comigo parece diferente?

"Eu, porém, sou verme, e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo."

    Ele descreve o grau de humilhação: sente‑se “verme”, abaixo de um ser humano, alvo de vergonha e desprezo coletivo. É o retrato de quem perdeu toda consideração social.

"Todos os que me veem zombam de mim; arreganham os lábios e meneiam a cabeça: 'Confiou no Senhor, pois que ele o livre; que o salve, se é que o ama'".

    O sofrimento inclui zombaria religiosa. As pessoas usam a própria fé do salmista contra ele: “confiou em Deus? então que Deus o salve… se o ama mesmo”. É sarcasmo que tenta destruir a confiança em Deus.

"Sim, tu me tiraste do ventre; deste‑me segurança ao seio de minha mãe. Em ti fui lançado desde o seio materno; desde o ventre de minha mãe, tu és o meu Deus."

    Ele recorda a história pessoal com Deus desde o início da vida. Ainda no ventre e no colo materno, sua existência já estava nas mãos do Senhor. Isso reforça o paradoxo: “se sempre estiveste comigo, por que agora pareces ausente?

"Não te afastes de mim, pois a angústia está perto, e não há quem me ajude."

    O pedido é direto: “não te afastes”. A angústia está próxima, os apoios humanos falharam; só Deus pode ajudar.

"Muitos touros me cercam, poderosos touros de Basã me rodeiam. Abrem contra mim a boca, como leão que despedaça e ruge."

    A partir daqui, surgem imagens animais para falar dos inimigos. Touros fortes, leões que rugem e querem despedaçar: o salmista se sente cercado por forças violentas e impiedosas.

"Derramo‑me como água, e todos os meus ossos se desconjuntam; meu coração é como cera, derrete‑se no meio das minhas entranhas."

    O sofrimento atinge o corpo: fraqueza extrema, sensação de desfalecimento, dores ósseas, coração desfeito como cera. É um quadro quase clínico de esgotamento físico e emocional.

"Secou‑se minha força como um caco de barro, a língua se me pega ao céu da boca; tu me deitas no pó da morte."

    A imagem de “caco de barro” indica fragilidade ressequida, estilhaçada. A boca seca, a sede intensa, a experiência de estar “no pó da morte” – como alguém já deitado à beira do fim.

"Cães me rodeiam, uma turba de malfeitores me cerca; traspassaram minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos; eles me observam e me encaram."

    Agora os inimigos são comparados a “cães” e “bando de malfeitores”. A expressão “traspassaram minhas mãos e meus pésecoa fortemente na leitura cristã da crucifixão; também pode indicar violência brutal sofrida. Ele está exposto, magro, vulnerável: pode contar os ossos, objeto de olhar frio e cruel.

"Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançam sortes."

    Mais um quadro de humilhação: até as roupas são tiradas, distribuídas como saque entre os algozes. O Novo Testamento verá aqui um cumprimento literal na Paixão de Jesus.

"Mas tu, Senhor, não te afastes; tu, minha força, vem logo em meu auxílio. Livra minha alma da espada, minha vida da garra desses cães. Salva‑me da boca do leão, e dos chifres dos búfalos."

    O tom muda de descrição para súplica. Ele clama por proximidade (“não te afastes”), por pressa (“vem logo”), e pede libertação da espada, dos cães, dos leões, dos búfalos – todas imagens dos inimigos.

    Aqui, no meio do v.21, há um ponto de virada. Algumas versões inserem algo como “Tu me respondeste!” marcando o momento em que a oração passa da angústia para a confiança.

"Então anunciarei teu nome a meus irmãos, no meio da assembleia te louvarei: 'Vós que temeis o Senhor, louvai‑o; glorificai‑o, descendência de Jacó; reverenciai‑o, vós todos, filhos de Israel.'

    De repente, o salmista se vê de pé na comunidade, prometendo anunciar o nome de Deus. Do grito de abandono ele passa à missão de louvar publicamente, convocando todos os que temem o Senhor a glorificá‑lo.

"Pois ele não desprezou nem teve aversão ao sofrimento do pobre; não lhe ocultou a face, mas o ouviu quando implorou por socorro."

    Agora ele interpreta sua experiência: Deus não rejeitou o sofrimento do pobre. Mesmo no aparente silêncio, no fim o Senhor “não ocultou a face”, mas ouviu o clamor.

"De ti vem o meu louvor na grande assembleia; cumprirei meus votos na presença dos que te temem."

    O salmista reconhece que até sua capacidade de louvar é dom de Deus. Ele promete cumprir os votos feitos na crise, não apenas esquecer o que prometeu quando estava em perigo.

"Os pobres comerão e se saciarão; louvarão o Senhor os que o procuram. Que vosso coração viva para sempre!"

    O horizonte se abre para outros: pobres alimentados, buscadores de Deus saciados. A experiência de salvação transborda em bênção para a comunidade humilde.

"Lembrar‑se‑ão do Senhor e a ele voltarão todos os confins da terra; diante dele se prostrarão todas as famílias das nações."

    O salmo se torna universal. Da dor individual, passa‑se a uma visão missionária: povos de toda a terra se lembrarão do Senhor e voltarão para Ele.

"Pois ao Senhor pertence o reino, ele domina sobre as nações. Razão dessa universalidade: Deus é Rei de todos, não apenas de Israel. Diante dele se curvarão todos os grandes da terra; diante dele se prostrarão todos os que descem ao pó. Minha alma viverá para ele."

    Tanto poderosos como frágeis, vivos e moribundos, são chamados a adorar. O salmista afirma: “minha alma viverá para Ele” – consagração total após a experiência de quase morte.

"Minha descendência o servirá; será anunciada ao Senhor a geração futura. Virão contar sua justiça ao povo que há de nascer: 'Eis o que fez o Senhor'”.

    O último olhar vai para o futuro. A obra de Deus nessa dor não ficará confinada a uma geração: será contada aos que ainda vão nascer. A frase final, em muitas traduções, pode ser entendida como “Ele o fez!”, ecoando a ideia de obra concluída – para o cristão, facilmente associada ao “Tudo está consumado” de Cristo na cruz.


Salmo 22 em linguagem atual e simplificada

  1. Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? O grito que eu dou parece tão longe da tua salvação.
  2. Meu Deus, eu clamo de dia, e não me respondes; de noite, e não encontro descanso.
  3. E, no entanto, tu és o Santo, que habitas no meio dos louvores de Israel.
  4. Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os libertaste.
  5. A ti clamaram, e foram salvos; confiaram em ti, e não ficaram decepcionados.
  6. Eu, porém, sou como um verme, e não um homem; sou motivo de vergonha e desprezo para o povo.
  7. Todos os que me veem zombam de mim; fazem caretas e balançam a cabeça, dizendo:
  8. “Ele confiou no Senhor; então que o Senhor o livre! Que o salve, se é que o ama.”
  9. Mas foste tu que me tiraste do ventre materno, que me deste segurança nos braços de minha mãe.
  10. A ti eu fui entregue desde o seio; desde o ventre de minha mãe, tu és o meu Deus.
  11. Não fiques longe de mim, pois a angústia está perto, e não tenho ninguém para me socorrer.
  12. Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam.
  13. Abrem a boca contra mim como leão que despedaça e ruge.
  14. Eu me derramo como água, todos os meus ossos se desconjuntam; meu coração é como cera, derrete dentro de mim.
  15. Minha força secou como um caco de barro, a língua se pega ao céu da boca; tu me colocas no pó da morte.
  16. Cães me rodeiam, um bando de malfeitores me cerca; traspassaram minhas mãos e meus pés.
  17. Posso contar todos os meus ossos; eles me observam e ficam olhando para mim.
  18. Dividem entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançam sortes.
  19. Mas tu, Senhor, não fiques longe; tu que és a minha força, vem depressa em meu auxílio.
  20. Livra minha vida da espada, meu ser das garras desses cães.
  21. Salva‑me da boca do leão e dos chifres dos búfalos.
  22. Então anunciarei o teu nome aos meus irmãos; no meio da assembleia te louvarei, dizendo:
  23. “Vós que temeis o Senhor, louvai‑o; glorificai‑o, descendência de Jacó; reverenciai‑o, vós todos, filhos de Israel.
  24. Porque ele não desprezou nem rejeitou o sofrimento do pobre; não escondeu dele o seu rosto, mas o ouviu quando pediu socorro.”
  25. De ti vem o meu louvor na grande assembleia; cumprirei meus votos na presença dos que te temem.
  26. Os pobres comerão e ficarão satisfeitos; os que buscam o Senhor o louvarão. Que o coração de vocês viva para sempre!
  27. Lembrar‑se‑ão do Senhor e a ele voltarão todos os confins da terra; diante dele se prostrarão todas as famílias das nações.
  28. Pois o reino pertence ao Senhor, e ele governa sobre as nações.
  29. Diante dele se curvarão todos os poderosos da terra; diante dele se prostrarão todos os que descem ao pó. Minha vida o servirá.
  30. A geração seguinte o servirá e falará do Senhor à geração seguinte.
  31. Virão anunciar a sua justiça a um povo que ainda vai nascer, dizendo: “Foi o Senhor que fez isso!”.


Ensinamentos do Salmo 22 para hoje

1. Deus acolhe o grito de quem se sente abandonado

    O salmo mostra que a Bíblia não tem medo do “Meu Deus, por que?”. A fé bíblica permite levar a Deus o sentimento de abandono, sem máscara e sem censura devocional. Isso é libertador para quem atravessa depressão, doenças longas, injustiças ou noites espirituais.


2. A tensão entre memória de fé e dor presente

    O salmista lembra que os pais confiaram e foram salvos, enquanto ele, por um tempo, parece não ser atendido. Essa tensão é muito real hoje: conhecemos testemunhos de milagres e, ao mesmo tempo, carregamos situações ainda sem resposta. O salmo nos ensina a manter viva a memória da fidelidade de Deus, mesmo quando ainda não vemos a mesma experiência em nós.


3. Humilhações que atingem também a fé

    Os que zombam do salmista atacam diretamente sua confiança em Deus:

    Confiou no Senhor, que Ele o salve…”.

    Quantas vezes hoje a fé é ridicularizada quando o cristão sofre, perde, fracassa aos olhos do mundo. O salmo legitima essa dor e, ao mesmo tempo, mostra que a zombaria não é a palavra final.


4. Sofrimento integral: corpo, alma e relações

    O salmo descreve:

  • secura física; 

  • dores; 

  • exposição; 

  • perda de bens; 

  • isolamento.

    A Bíblia não espiritualiza o sofrimento; reconhece que ele atinge corpo, psiquismo e relações sociais. Isso permite rezar com verdade em situações de doença, pobreza, perseguição, sem culpar automaticamente a pessoa por “falta de fé”.


5. A virada: do “por quê?” ao “assim mesmo eu te louvarei”

    No meio do salmo, depois de pedir socorro, há uma virada: o orante se vê novamente na assembleia, anunciando o nome de Deus e convidando outros a louvar. Não sabemos exatamente “quando” isso acontece na história concreta, mas teologicamente indica que a última palavra não é o abandono, e sim o louvor.


6. Deus não despreza o sofrimento do pobre

    Ele não desprezou nem rejeitou o sofrimento do pobre.

    Em contextos onde alguns discursos religiosos parecem culpar sempre o sofredor, esse verso é fundamental: Deus não se afasta do pobre, do aflito, do humilhado; Ele se inclina, vê, escuta e, no tempo dele, age.


7. Da dor de um para a bênção de muitos

    A experiência do salmista se desdobra em alimento para os pobres, conversão das nações, anúncio às gerações futuras. Em Cristo, isso se cumpre de modo pleno: da cruz de um só Homem vem salvação oferecida a todos. Na nossa vida, isso se reflete quando deixamos que sofrimentos atravessados em fé se tornem fonte de consolo e evangelização para outros.


8. Ler o salmo à luz da cruz, mas também da nossa história

    Na tradição cristã, vemos claramente nesse salmo muitos detalhes da Paixão de Jesus: o grito na cruz, a perfuração das mãos e dos pés, o sorteio das vestes, a zombaria dos inimigos. Isso não elimina a leitura original, mas a aprofunda. Podemos rezar o Salmo 22 como oração de Cristo e, ao mesmo tempo, como nossa — unindo nossas dores às dEle, na certeza de que o caminho da cruz termina em ressurreição e louvor.


Anotações do Autor

O Salmo 22: um grito de dor que aponta para a cruz

    O Salmo 22 começa com um grito desesperado:

    Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.

    Essa frase, entretanto, não é apenas um lamento isolado de algum anônimo sofredor: na tradição cristã, tornou‑se a palavra central da Paixão de Cristo, ecoando na cruz conforme testemunham o Evangelho de Mateus (27,46) e o de Marcos (15,34).

   Ao repetir esse verso, Jesus não apenas expressa a intensidade de sua dor física e espiritual, mas invoca todo o salmo, como se dissesse:

O que está acontecendo aqui já foi cantado antes nas Escrituras”.


Um salmo histórico, antes de tudo

    Historicamente, o Salmo 22 é atribuído a Davi, o rei‑pastor de Israel, que viveu entre o século XI e X a.C.

    O contexto que cerca esse texto é o de um homem justo cercado por inimigos violentos, vivendo uma experiência de sobrevivência ameaçada.

    Muitos comentaristas associam esse salmo a momentos em que Davi fugia de Saul, em perigo de morte, ou vivia em território estrangeiro, cercado de ameaças e humilhações.

    Nesse cenário, o salmo expressa o sentimento de alguém que se sente abandonado por Deus, mas que, mesmo assim, continua clamando por auxílio.

    Assim, o Salmo 22 é, antes de qualquer leitura cristológica, um lamento de crise extrema, onde o sofredor descreve não apenas a dor física, mas também:

  • o escárnio público; 

  • a solidão; e 

  • a sensação de desamparo.

    É nesse terreno histórico que o texto nasce; depois, ao longo da tradição, ele será lido também como um espelho profético da missão de Cristo.


Versículos que ecoam a crucificação

    Por isso alguns leitores costumam dizer que o Salmo 22 é “o salmo da cruz”: vários de seus versos, lidos à luz do Evangelho, parecem descrever com impressionante fidelidade a experiência de Jesus na crucificação.

    Os versos 7–8 – “Todos os que me veem zombam de mim… Confiou no Senhor; livre‑o ele; salve‑o, pois nele tem prazer” – ecoam o escárnio dos passantes, dos escribas e dos sacerdotes diante de Jesus na cruz (cf. Mt 27,39–43).

  Em 14–15, o salmista diz:

Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram… A minha força secou‑se… e a língua se me pega ao paladar; tu me puseste no pó da morte.

    Lembram a exaustão extrema, a desidratação e a sensação de corpo quase desfeito, que caracterizam a agonia da crucificação.

    Em 16, a tradução cristã tradicional lê: “Transpassaram‑me as mãos e os pés”, o que muitos veem como uma descrição direta da fixação do corpo à cruz.

    Em 17, “Posso contar todos os meus ossos”, reforça a imagem de um corpo estendido, exposto e desfigurado.

    E em 18, “Repartem entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançam sortes”, encontra o seu cumprimento explícito nos Evangelhos, quando os soldados dividem as vestes de Jesus e lançam sortes pela sua túnica (Mt 27,35; Jo 19,24).

    Se o leitor olhar para o Salmo 22 e depois para o relato da crucificação, notará como as imagens se sobrepõem:

  • escárnio; 

  • sede; 

  • dor extrema; 

  • olhares de curiosidade e desprazer; 

  • a partilha das vestes.

    Por isso, ao longo da história, muitos pregadores e compositores cristãos chamaram o Salmo 22 de “salmo da cruz”.


O Salmo 22 é profecia… e não clarividência natural

    Diante disso, surge uma pergunta inevitável: é possível dizer que, neste salmo, Davi foi “clarividente” quanto à morte de Cristo, e que o salmo seria uma espécie de "profecia histórica" detalhada da cruz?

    A resposta é: sim, o Salmo 22 é visto como profecia messiânica, mas não como uma visão interior ou clarividência natural, e sim como um salmo inspirado pelo Espírito Santo.

    A Bíblia não apresenta Davi como alguém que “assistiu” à crucificação em visão, e sim como um profeta guiado por Deus a exprimir, na própria dor, uma realidade que iria além dele. 

    Em Atos 2, Pedro afirma que Davi, “profeta”, falava de um Messias futuro, o que indica que Davi olhava para um horizonte de salvação que o Senhor prometera, não apenas para o sofrimento imediato de sua biografia.

    O Salmo 22, então, é um salmo profético‑poético: Davi lamenta sua própria morte iminente, mas, na inspiração de Deus, descreve um sofrimento que se torna, em retrospecto, o retrato impressionante da morte de Jesus.

    Embora Davi, em seu contexto histórico, esteja clamando pela própria libertação, a leitura cristã percebe que o salmo só encontra seu pleno cumprimento em Cristo, que assume esse grito, essas imagens e essa trajetória de escárnio, dor e entrega, para convertê‑la em fonte de redenção.

    Isso significa que o Salmo 22 é, sim, uma profecia da cruz – mas profecia em forma de poesia inspirada, não de relatório técnico; e Davi, um profeta guiado pelo Espírito, não um “clarividente” que teria presenciado Jesus na cruz como num filme interior.


Por que o Salmo 22 começa em dor e termina em louvor?

    O que impressiona, porém, é que o Salmo 22 não permanece apenas no grito de dor. O primeiro terço do salmo é marcado por angústia, mas o resto é progressivamente um salmo de confiança e de louvor.

    O salmista, que começou descrevendo os inimigos como “cães” e “um ajuntamento de malfeitores”, termina afirmando que Deus é santo, que seus ouvidos não se fecham às súplicas, e que a glória do Senhor será anunciada inclusive às gerações futuras (v. 27–31).

    Essa estrutura é fundamental para entender como Jesus, ao recitar o primeiro verso, não estava apenas descrevendo o abandono, mas também proclamando a vitória que viria.

    O grito de desamparo é o ponto de partida, mas o salmo como um todo é uma história de salvação. Quando Cristo se identifica com esse salmista, Ele assume também a perspectiva final: a fé que, mesmo no meio da dor, não se fecha para o futuro de Deus.


A polêmica do verso 16: “transpassaram” ou “como um leão”?

    Diante de tudo isso, emerge uma pergunta recorrente: por que alguns dizem que Salmo 22,16 não menciona perfuração?

    A resposta está na leitura do hebraico original.

  O texto traz duas possibilidades bem próximas graficamente:

  • “como um leão” (ka’ari); e 

  • “perfuraram” (ka’aru).

    Muitos manuscritos massoréticos (texto hebraico padrão do Antigo Testamento) mais antigos trazem “como um leão às minhas mãos e aos meus pés”, destacando a imagem de inimigos violentos que se abatem sobre o sofredor.

   Já algumas tradições cristãs, sobretudo em traduções mais antigas, optaram por “transpassaram‑me as mãos e os pés”, ligando explicitamente o verso à crucificação.

Por isso, alguns leitores defendem que o verso original fala apenas de ataque violento, não de perfuração; enquanto outros argumentam que há manuscritos antigos (como o de Qumran) e uso de verbos ligados a “perfurar” em contextos semelhantes, o que torna a leitura “transpassaramteologicamente coerente, mesmo que haja discrepância textual.

    A controvérsia, portanto, nasce da proximidade gráfica entre as duas formas hebraicas e da escolha teológica de tradutores.

    O que não muda é o fato de que, para o crente cristão, o Salmo 22, lido à luz da cruz, é um testemunho de que o sofrimento não é o fim, mas o caminho para a redenção.


O Salmo 22 e a experiência cristã hoje

    Para quem lê o Salmo 22 hoje, Jesus não é apenas um personagem histórico que “cumpriu” um salmo; ele é o homem‑Messias que passou pela mesma experiência de abandono que muitos santos sentem, mas que, nesse abandono, ainda conseguiu confiar. 

    Quando alguém diz “meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, o Salmo 22 e o Evangelho respondem com a imagem de um crucificado que, após o grito, confiou a Deus o espírito.

    O Salmo 22, então, convida o leitor a:

  • reconhecer a dor sem romantizá‑la; 

  • entrar na narrativa da cruz, percebendo que o sofrimento de Cristo abraça todos os abandonados da história; 

  • e, por fim, sair do lugar da dor para o lugar do louvor, como o próprio salmo faz, lembrando que, por trás do abandono aparente, está um Deus que escuta, que sustenta e que, em Cristo, transformou o grito de morte em canto de ressurreição.

    Se, ao final, você olhar para o Salmo 22, poderá fazê‑lo como Davi, como Jesus e como tantos cristãos ao longo dos séculos:

  • de um lado, o grito de dor; 

  • do outro, a certeza de que o Salmo 22 não termina na cruz, mas na proclamação de que Deus é santo, e que o seu reino chega até os últimos confins da terra.

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