Chegamos a 10% do Saltério, abordando e analisando os 15 primeiros salmos.
Para evitar de ficar muito cansativo, vamos fazer duas postagens ao dia, sendo uma postagem de um livro bíblico, e uma postagem relativa a um salmo - afinal, são 150 salmos, muita coisa para fazer tudo em seguida, sem pausas.
Dito isso, vamos abordar o livro de Tobias.
Capítulos 1 e 2 – Tobit no exílio e sua cegueira
Tobit era um israelita justo que vivia no exílio, longe de sua terra, submetido ao domínio de potências estrangeiras.
Mesmo vivendo em país estranho, ele permanecia fiel à Lei, rezava, praticava esmolas e fazia questão de sepultar com respeito os mortos do seu povo, gesto perigoso numa terra onde os israelitas eram desprezados.
Enquanto muitos se acomodavam aos costumes pagãos, Tobit insistia em manter a identidade de fé de seus antepassados, mesmo que isso lhe custasse perseguição e perda de privilégios.
Certo dia, após cumprir mais uma vez o gesto de misericórdia de enterrar um compatriota, Tobit voltou para casa cansado e se deitou junto a uma parede, sem imaginar que aquele simples gesto cotidiano mudaria sua vida.
Durante a noite, um infortúnio aparentemente banal o atingiu. Pardais defecaram em seus olhos e, quanto mais ele tentava tratar seus olhos, mais cego ficava.
A partir desse episódio, ele gradualmente perdeu a visão, mergulhando na escuridão física que simbolizava também uma grande prova espiritual.
Aquele homem, que sempre ajudara os outros, passou agora a depender dos cuidados alheios; sua casa, antes lugar de generosidade ativa, tornou-se também espaço de dor, tensão e perguntas sem resposta.
Capítulo 3 – A oração de Tobit
Ferido pela cegueira, pelas dificuldades financeiras e pela incompreensão, Tobit não deixa de se dirigir a Deus.
Em vez de apenas murmurar, ele transforma sua amargura em oração, reconhece as próprias faltas e a infidelidade do povo, e suplica que o Senhor tenha misericórdia, pedindo com humildade que sua vida tenha um desfecho digno e seja acolhida por Deus no tempo oportuno.
A prova não o torna um rebelde sem fé, mas um homem que se apresenta com franqueza diante de Deus, sem máscaras, levando-lhe tanto a dor quanto a confiança.
Essa oração, porém, não ecoa sozinha no mundo: em outro lugar, uma jovem chamada Sara enfrenta também um sofrimento profundo, e o clamor dela sobe ao mesmo Deus.
Ela havia ficado noiva sete vezes, mas todos os seus sete noivos foram mortos por um demônio chamado Asmodeus. Ela havia pensado em se enforcar, mas pensando nas consequências que isso traria ao seu pai, tanto nesta vida quanto na mansão dos mortos, ela decidiu orar e elevar suas dores a Deus.
A narrativa mostra, assim, que o Senhor escuta ao mesmo tempo o grito do velho justo e o pranto da jovem provada, preparando discretamente um caminho de salvação que ainda nenhum deles consegue enxergar.
O que para Tobit é apenas noite e cegueira, para Deus é o início de um plano de cura, reconciliação e esperança.
Capítulo 4 – Conselhos de Tobit a seu filho
Ele o exorta a lembrar sempre de Deus, a fugir do pecado, a praticar a justiça com todos e a exercer a caridade concreta com os pobres e necessitados, especialmente com os compatriotas mais vulneráveis.
Fala da importância de pagar dívidas, ser honesto nos negócios, respeitar os pais, escolher bem as companhias e viver de tal modo que Deus seja honrado em cada gesto cotidiano.
Ao pedir que Tobias cuide dos parentes, honre a memória dos antepassados e pratique a esmola com generosidade, Tobit mostra que a verdadeira herança que deseja deixar não é apenas material, mas espiritual e moral.
Ele orienta o filho sobre uma viagem importante que deverá realizar, lembrando-lhe que a bênção de Deus acompanha aqueles que unem prudência humana e confiança na providência divina.
Assim, o diálogo entre pai e filho encerra essa primeira parte da história como um testamento vivo: no meio do exílio, da pobreza e da cegueira, Tobit garante que a fé, a justiça e a misericórdia ainda são o caminho seguro para o futuro.
Anotações do Autor
Por que protestantes não acolhem Tobias e que critérios usam
Em geral, as tradições protestantes seguem, para o Antigo Testamento, o cânon hebraico rabínico, que não inclui Tobit, classificando-o como “apócrifo”, enquanto a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas o consideram deuterocanônico.
A Reforma, sobretudo em Lutero, adotou o critério de alinhar o Antigo Testamento ao cânon judaico então reconhecido, de modo que livros presentes na Septuaginta mas ausentes no texto hebraico tradicional foram colocados em posição secundária ou excluídos.
Em termos teológicos gerais (simplificando o discurso protestante clássico), costuma‑se usar critérios como:
- Autoridade profética ou apostólica (ou proximidade direta a tais figuras).
- Concordância doutrinal com o restante das Escrituras, sem aparentes “inovações” doutrinais.
- Uso e recepção ampla pelas comunidades de fé (povo de Deus) ao longo do tempo.
- Presença no cânon hebraico para livros do Antigo Testamento.
Como Tobit não estava no cânon hebraico rabínico e é visto por muitos reformadores como literatura edificante, mas não normativa, acabou ficando fora do cânon protestante, ainda que algumas edições antigas de Bíblias protestantes o mantivessem em seções separadas (Apócrifos) para leitura espiritual.
Por que a Igreja Católica acolhe Tobias e quais critérios usa
Tobias/Tobit aparece nas listas antigas de livros reconhecidos pela Igreja, como nos concílios de:
- Roma (382);
- Hipona (393); e
- Cartago (397 e 419), ao lado dos demais deuterocanônicos.
Padres como Agostinho e o papa Inocêncio I o citam como Escritura, enquanto outros (como Atanásio) o recomendam para leitura na Igreja, ainda que com nuances na terminologia.
O Concílio de Florença (1442) e, depois, o Concílio de Trento (1546) ratificam definitivamente Tobit como parte do cânon católico, em continuidade com essa tradição antiga e com o uso litúrgico e espiritual do livro.
De modo resumido, a teologia católica costuma apontar critérios como:
- Tradição contínua de leitura e uso litúrgico na Igreja desde os primeiros séculos.
- Recepção em listas canônicas de concílios e sínodos antigos (Roma, Hipona, Cartago) e confirmação em concílios ecumênicos posteriores.
- Coerência doutrinal com a fé da Igreja e valor espiritual/moral do conteúdo (no caso de Tobit, temas como família, matrimônio, esmola, oração, confiança na providência).
- Confiança na assistência do Espírito Santo à Igreja na definição do cânon, especialmente expressa em Trento diante das controvérsias da Reforma.
Quem está certo: católico ou protestante?
Não há como dizer quem está "certo" numa situação dessas, porque isso é uma decisão de fé e de pertença eclesial, não de pura lógica.
Do ponto de vista descritivo e histórico, porém, eu reconheceria que o livro de Tobias/Tobit faz parte do conjunto de escritos usados como Escritura por uma parte muito significativa da tradição cristã (Católica, Ortodoxa, Assíria etc.) e o trataria como tal quando dialogo com essas tradições, e como literatura religiosa antiga importante, ainda que não canônica, quando dialogo com o critério protestante.
Então, por ser católico, eu aceito a visão de Tobias como livro canônico deuterocanônico, com autoridade espiritual e doutrinal dentro desse cânon.
Mas isso não me impede de respeitar pessoas que seguem uma perspectiva protestante clássica, tratando Tobias como livro apócrifo/deuterocanônico: não normativo para doutrina, mas útil para contexto histórico, espiritualidade e compreensão da tradição.
Em outras palavras, eu acredito na legitimidade do livro de Tobias como Escritura no contexto das tradições que o reconhecem no seu cânon, e o recomendaria como texto religioso relevante, apesar de não canônico, às comunidades que seguem estritamente o cânon hebraico do Antigo Testamento.
Existe, na tradição cristã antiga e em parte da argumentação protestante posterior, um uso de “critério hebraico” (livro presente em hebraico no cânon judaico) para o Antigo Testamento, mas isso nunca foi o único critério e é objeto de debate.
O livro de Tobias/Tobit, por sua vez, foi originalmente composto em língua semítica (provavelmente aramaico), com fragmentos em aramaico e hebraico preservados entre os Manuscritos do Mar Morto.
O critério protestante do “hebraico”
Entre muitos protestantes, especialmente sob influência da Reforma, consolidou‑se a ideia de que o Antigo Testamento cristão deve corresponder ao cânon hebraico rabínico, isto é, aos livros preservados na Bíblia hebraica (massorética).
Em termos práticos, isso significa: se um livro não consta no cânon hebraico tradicional, mesmo que esteja na Septuaginta grega, ele não entra no cânon protestante; é o caso de
- Tobias/Tobit;
- Sabedoria;
- Eclesiástico (Sirácida);
- 1–2 Macabeus etc.
Em alguns autores antigos e em reflexões posteriores, aparece explicitamente um “critério hebraico”: só livros escritos em hebraico (admitindo partes em aramaico) seriam canônicos para o Antigo Testamento, ao passo que obras compostas em grego seriam excluídas. Esse critério, porém:
- Não é uniforme nem exclusivo em toda a tradição protestante (nem mesmo em toda a tradição patrística);
- Mistura elementos históricos (vínculo com o judaísmo) com opções teológicas e polêmicas (distanciar‑se dos deuterocanônicos usados pela Igreja Católica).
Hoje, mesmo em meio acadêmico protestante, muitos reconhecem que o desenvolvimento do cânon é mais complexo e que a simples “linguagem hebraica” não resolve toda a questão da canonicidade.
Idioma original do livro de Tobias/Tobit
A pesquisa moderna é praticamente consensual em afirmar que Tobit foi composto originalmente em uma língua semítica (não em grego).
Com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, foram encontrados fragmentos de Tobit em aramaico (quatro fragmentos) e em hebraico (um fragmento) na caverna 4 de Qumran, datados aproximadamente dos séculos II–I a.C.
Os estudiosos, bem como notas de Bíblias católicas e comentários, indicam que:
- O original de Tobit é muito provavelmente aramaico, embora também existam formas hebraicas; não está totalmente claro qual das duas línguas tem prioridade absoluta, mas ambas mostram origem semítica e não grega;
- As versões gregas que conhecemos (duas recensões principais, uma mais longa — Codex Sinaiticus — e outra mais breve) são traduções desse(s) texto(s) semítico(s).
Isso significa que, curiosamente, o “critério da língua” não exclui Tobias/Tobit do ponto de vista puramente filológico: não se trata de um livro originalmente grego inventado tardiamente, mas de uma obra judaica semítica do período do Segundo Templo, traduzida depois para o grego e incorporada na Septuaginta.
Relação entre hebraico e aramaico
Diferença básica entre hebraico e aramaico
- Ambos pertencem ao grupo das línguas semíticas do noroeste (como fenício, moabita etc.), com origem comum e muitas estruturas semelhantes;
- Hebraico foi a língua original dos israelitas, base principal da maior parte do Antigo Testamento;
- Aramaico foi a língua dos arameus e, depois, tornou‑se uma espécie de “língua franca” do Oriente Próximo antigo (impérios assírio, babilônico, persa), sendo adotada também por muitos judeus após o exílio;
- Há diferenças de fonética, vocabulário e gramática: por exemplo, o sistema vocálico é um pouco diferente, certas raízes verbais mudam de forma, e algumas construções sintáticas são próprias de cada língua;
- No contexto bíblico, o aramaico de Daniel e Esdras é escrito com o mesmo alfabeto usado para o hebraico bíblico, o que facilita muito a leitura para quem já conhece as letras hebraicas.
Podem ser considerados “irmãos”?
- Do ponto de vista linguístico, sim: são línguas “irmãs” ou “primas próximas”, descendentes de um tronco comum (semítico noroeste) e com alto grau de semelhança estrutural e lexical;
- Não são meros “dialetos” um do outro, mas línguas distintas, com história própria, ainda que com certo grau de inteligibilidade para quem domina bem uma delas.
Então, em linguagem simples: não é correto dizer que o aramaico é só um “dialeto” do hebraico; mas é bastante adequado chamá‑los de línguas irmãs, muito próximas dentro da mesma família.
Ensinamentos de Tobit para Tobias e sua aplicação hoje
Abaixo, uma lista sintética dos principais ensinamentos de Tobit a Tobias (Tobias 4) e como podem ser vividos no presente.
| Ensinamento de Tobit | Sentido no texto | Aplicação hoje |
|---|---|---|
| Lembrar-se de Deus em todos os dias da vida | Viver em aliança, mantendo a fé mesmo no exílio e na prova. | Manter vida de oração e consciência de Deus em meio a trabalho, estudos, crises e decisões diárias. |
| Evitar o pecado e praticar a justiça | Não seguir costumes pagãos, ser íntegro nas relações. | Resistir à corrupção, à desonestidade e às “pequenas concessões”, buscando ética profissional e pessoal. |
| Honrar pai e mãe | Respeitar, escutar e cuidar dos pais, inclusive em sua velhice. | Cuidar de pais idosos, ouvir sua experiência, evitar abandono familiar e cultivar gratidão. |
| Praticar esmolas e caridade com os pobres | Partilhar bens com quem passa necessidade, especialmente compatriotas mais vulneráveis. | Engajar-se em ações sociais, apoiar pessoas em situação de pobreza, partilhar tempo, recursos e competências. |
| Pagar dívidas e ser honesto nos negócios | Manter retidão em empréstimos, contratos e promessas. | Ser transparente financeiramente, honrar contratos, evitar fraudes e “jeitinhos” em relação a dinheiro e impostos. |
| Guardar pureza e escolher bem o casamento | Casar-se de modo responsável, dentro da fé e com respeito às leis de Deus. | Discernir relações afetivas com maturidade, fidelidade, compromisso, abertura à vida e respeito mútuo. |
| Respeitar os mortos e cuidar da memória dos antepassados | Sepultar com dignidade, lembrar história e fé do povo. | Valorizar ritos fúnebres, cultivar memória da família e da tradição, aprender com a história dos que nos precederam. |
| Confiar na providência de Deus nas viagens e projetos | Antes da viagem de Tobias, Tobit o confia ao cuidado divino. | Rezar e planejar com prudência antes de grandes decisões (mudanças, projetos, viagens), unindo responsabilidade humana e confiança em Deus. |
| Escolher bem as companhias | Andar com pessoas justas e fiéis, e desconfiar de pessoas ímpias e desonestas. | Cuidar das amizades, das parcerias de trabalho e das influências (inclusive digitais), priorizando quem ajuda a crescer em virtude. |




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